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CONFERÊNCIA Ex-colônias portuguesas compartilham drama da desertificação Língua e história não são as únicas características em comum entre o Brasil e as ex-colônias portuguesas na África. A desertificação, processo de degradação da terra, atinge o interior do Brasil e também o de Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola e Moçambique. Dos cinco países africanos dominados por Portugal no passado, apenas São Tomé e Príncipe não sofre com o problema. Reunidos na 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, que vai até sexta (26), no Centro de Convenções, representantes desses países falaram sobre o problema com a repórter Verônica Falcão. Um arquipélago de dez ilhas na África Ocidental Insular, Cabo Verde sofre períodos de estiagem que duram até 20 anos. As secas, associadas ao clima árido, fazem do país um campo aberto para a desertificação. Não fosse a ação do governo, que há mais de 25 anos se empenha em controlar o problema, a devastação já teria vencido essa batalha. O trabalho foi reconhecido pela ONU e, no ano passado, uma área piloto no Vale de São João Batista, em Santiago, uma das três ilhas que sofrem com o fenômeno, ganhou o prêmio Save Drylands (Salve Áreas Secas), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O projeto começou em 1984, com o reflorestamento do vale. A erosão, lembra o engenheiro rural João Miguel Lima, do Ministério Ambiental de Cabo Verde, é uma das causas da desertificação. Os solos, antes expostos à ação dos ventos e das chuvas esparsas, foram cobertos por algarobas, altamente resistentes ao clima semi-árido que predomina nas ilhas. "A vegetação também aumenta a infiltração e ajuda a reter a água no solo", explica o técnico, que dirige o Departamento de Engenharia Rural do ministério. Aproveitar ao máximo a água, que já é uma preocupação em áreas secas continentais, termina se transformando numa prioridade em ilhas oceânicas. Em Cabo Verde, chove apenas dois meses por ano. "Mais da metade dos 4.022 quilômetros quadrados do arquipélago têm clima subárido e árido, com precipitações inferiores a 100 milímetros por ano", justifica Lima. As ações do governo no Vale de São João Batista incluíram a construção de barragens, diques e adutoras para conduzir a água até as propriedades. O trabalho acabou aumentando a quantidade de produtores rurais no local. No início do projeto, o vale contava com 65 famílias, que cultivavam principalmente cana-de-açúcar para a fabricação de aguardente. Em 97, esse número subiu para 160, e a produção de legumes e hortaliças cresceu. "Produzir aguardente era mais cômodo porque a cana tem um ciclo de rega (tempo que pode passar sem água) maior que o dos legumes e hortaliças, que é de oito dias", conta. A mudança dos hábitos dos produtores, obtida com o trabalho de educação desenvolvido no local, resultou na queda no rendimento da cana-de-açúcar. A razão da quantidade de cana-de-açúcar produzida pela área ocupada, que era de 60%, caiu para 17% hoje. O rendimento da mandioca passou de 12% para 25%. Já a batata-doce, cultivada até na calha dos açudes, durante a estiagem, teve seu rendimento aumentado de 8% para 50%. Antes mesmo de se tornar independente de Portugal, em 1975, quando passou a adotar o regime parlamentarista, Cabo Verde se preocupava com o problema da seca e, conseqüentemente, da desertificação. Nessa época foi formado um comitê intergovernamental, composto por sete países, para controlar o fenômeno. O comitê reúne-se pelo menos uma vez por ano para discutir e planejar ações de combate à seca. O grupo é formado por países da zona do Sahel, entre o Deserto do Saara e a África Tropical. É nessa faixa onde se concentra a desertificação que atinge 75% da área do continente africano. Além de Cabo Verde, integram o comitê o Senegal, Mali, Niger, Burkina Fasso, Guiné Bissau e Gâmbia. |
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