LITERATURA III
Num tempo e espaço
totaisFinnegans Wake é uma
obra aberta, tal como é entendida por Umberto Eco, numa
retomada cíclica qual a imagem da personagem feminina
ALP nos remete. Nesta obra todos os elementos são
multiplicados, a partir dessa composição que constitui
a obra. "São círculos que partem da balada inicial
e que se cruzam em vários pontos. Todas as palavras
tornam-se assim superposições de palavras", nos
diz o escritor francês Michel Butor. Ele ainda nos traz
elucidações ao aproximar a prática de Joyce à dos
músicos mais modernos, observando que com o progresso de
sua cegueira, à medida em que elaborava sua obra,
também aumentava sua sensibilidade para a natureza
sonora do material que empregava, manifestando dessa
maneira sua percepção da relação íntima que liga o
romance à poesia e à música.
Dessarte, o desenvolvimento linear da
narrativa deixa de ter validade em Finnegans Wake, onde
tudo se passa num tempo e espaço total. Os personagens
se aglutinam num corso e ricorso, perene. Para Haroldo de
Campos esse romance tem como verdadeira personagem a sua
própria linguagem. Ou, conforme assinala Samuel Beckett,
"[a obra] não é sobre alguma coisa. É ela
própria essa alguma coisa".
Os protagonistas de Joyce pensam e
sentem exclusivamente em termos de palavras, isto devido,
em parte, à forma como ele mesmo pensa, decorrente da
perda progressiva da visão, tornando-se-lhe difícil
trabalhar. Se em Ulysses as descrições são em frases
esparsas, com suas personagens falando em permanente
monólogo mais do que as vemos, Joyce, em Finnegans Wake,
tentou que seu herói exprimisse em palavras os estados
mentais que surgem nos sonhos, habitualmente sem
palavras, ou, quando presentes, em linguagem como a do
poema "Jabberwocki", de Lewis Carrol, no famoso
Alice Através do Espelho.
Sugere Wilson, para melhor entender o
método de Joyce, algo que é análogo ao exercício que
Maury, citado por Freud, procedeu em 1878: o registro do
que se nos vai na mente no momento em que principiamos a
adormecer. Wilson demarca assim a evidência de que Joyce
valeu-se de Freud no que diz respeito aos princípios que
governam a linguagem falada nos sonhos. Joyce, com o seu
ato criativo na linguagem, possibilitou esse retrato da
vida psíquica na manifestação do inconsciente. Havia
lido Freud, guiado possivelmente por Edoardo Weiss,
sobrinho de Ettore Schmitz (nome do romancista Italo
Svevo), introdutor da psicanálise na Itália em 1910.
A tradução de Finnegans Wake é
aguardada pelos que fazem literatura e também pelos que
exercem a escuta psicanalítica, para quem a escuta das
palavras, tal como na Grécia arcaica, pré-socrática,
vale não apenas por seu conteúdo manifesto, mas
sobretudo pelo que tem a ser decifrado. Garcia-Roza nos
aponta para o valor das palavras no tempo de Parmênides,
pois faziam parte do mundo das coisas e dos
acontecimentos.
"A palavra, juntamente com as
condições de sua enunciação valia também como signo
a ser decifrado para que um outro sentido, oculto e
misterioso, pudesse emergir, num interminável de
decifrações". A palavra do aedo, poeta-profeta da
Grécia arcaica era portadora da verdade, da alétheia.
Cita Heidegger em sua leitura de Parmênides, quando vai
dizer que a questão do desvelamento, como tal, não é a
questão da verdade, que "a verdade não é uma
adequação entre o pensamento e a coisa, mas caminho
pelo qual ser e pensar podem dar-se". Esse caminho
é o desvelamento.
É assim que no discurso do analisante,
como no seu silêncio, nos seus tropeços, nas suas
construções, a verdade se mostra e se esconde.
"Heráclito", nos diz Alduísio M. Souza,
"jogava com equívocos fônicos e com construções
inusitadas do ponto de vista sintático que até hoje
são misteriosas. Heráclito, Rabelais, Joyce, o que
perguntavam todos esses autores? Eles criaram na
língua."
É então, nessa situação de
impossibilidade do sujeito de expressar na língua que
está à sua disposição aquilo que possa dar conta de
um Real que o atormenta, que o analisante busca, na
relação de alteridade que estabelece com o analista,
condições em que possa criar, fazer com a língua,
através do erro, das falhas do seu próprio dizer. São
nas condições de erro, na fala, que vai irromper o
sujeito, condições essas que vão permitir a
reconstrução de sua história, a simbolização desse
Real. Lacan vai nos dizer, ao final do Seminário 2, que
o erro não ocorre sem uma causa, embora não seja
intencional.
Nesse sentido, na literatura, Joyce se
apresenta como o autor que mais radicalizou ao criar na
linguagem, tanto no eixo sintático como no semântico,
subvertendo os códigos lingüísticos. Ainda que tenha
agido intencionalmente - não fora numa situação de
fala, numa relação de transferência, mas de linguagem
escrita - também Joyce não fugiria a um determinismo
imaginário ao tecer sua história.
Aos 17 anos Lacan já sabia disso,
quando encontrou Joyce, ao freqüentar a casa de Adrienne
Monnier, em Paris. Aos vinte anos assistiu à primeira
leitura da tradução francesa de Ulysses. É provável
que tenha sido bastante influenciado por Joyce, que já
procurasse ouvir Joyce "sem saber". Como
afirmou, são os acasos que nos atiram à direita e à
esquerda e é com eles que fazemos - porque somos nós
que o tecemos como tal - nosso destino. Com eles fazemos
o nosso destino porque falamos. Acreditamos dizer o que
queremos, mas é o que quiseram os outros, mais
particularmente a nossa família que nos fala. (...) Nós
somos falados, e por isso, fazemos dos acasos que nos
impelem algo de urdido. E, com efeito, há uma trama -
chamamos a isso nosso destino. De modo que não foi
seguramente por acaso, embora seja difícil reencontrar o
fio, que encontrei Joyce, em Paris quando ele ali estava,
por mais algum tempo ainda(...). (p. 139/9).
Na conferência proferida na abertura
do 5º Simpósio Internacional James Joyce, em junho de
75 na Sorbonne, intitulada "Joyce e o sintoma",
Lacan introduziu a sua conferência
"joyceando", ao pedir que o perdoassem por
poursticher (apodritar= apodrecer e imitar) um momento
Joyce. Sugere que se leia Finnegans Wake, algumas
páginas, sem procurar entender. Consegue-se ler, dizia,
"porque apenas se sente presente o gozo de quem
escreveu."
Lacan entende que Joyce joga com o
equívoco na letra que a ortografia especial da língua
inglesa permite, apontando, por exemplo, para o peso da
palavra literatura, para o equívoco com que Joyce aqui
joga - letter, litter. "A letra é dejeto. Sem este
tipo de ortografia, que é o da língua inglesa, três
quartos dos efeitos de Finnegans perder-se-iam."
Lacan ainda observa que Joyce escreve frases onde está
presente a homofonia translinguística.
A transcriação de Finnegans Wake por
Donaldo Schüler, a ser lançada em vários volumes e em
edição bilingüe pela Casa de Cultura Guimarães Rosa e
o Ateliê Editorial, promete ter preservado esse
espírito joyceano da escrita. Além disso, acompanha a
transcriação um aparato crítico justificando as
escolhas na transcriação, suporte útil para um leitor
diligente.
* Maria Teodora de Barros Oliveira
é mestra em Antropologia, professora na UFRPE. É
representante no Recife da Casa de Cultura Guimarães
Rosa. Faz formação psicanalítica freud-lacaniana.
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