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Processos de paz

Ainda sobre as comemorações da derrubada do Muro de Berlim, que reuniram personalidades e milhares de alemães e estrangeiros na cidade reunificada há dez anos, cabem mais algumas considerações. Além do que já dissemos sobre o bom que seria se nossos governantes, elites, políticos, tivessem conceitos e práticas semelhantes às dos alemães, sobre o que é e como funciona uma federação, acrescentamos mais algumas observações. O governo da República Federal da Alemanha tem investido dezenas de bilhões de dólares, boa parte a fundo perdido, para recuperar a atrasada economia dos Estados que compunham a ex-Alemanha Oriental e revitalizar a parte oriental de Berlim. Os alemães fazem isso porque sabem que seu país não poderá continuar liderando a economia da União Européia, e permanecer entre as mais desenvolvidas economias do mundo, se suas diversas regiões e Estados tiverem progresso extremamente desigual.

As autoridades de Brasília e grande parte de nossas elites não pensam assim porque sua concepção de federação é muito distorcida. Apesar de a idéia federativa ser antiga em nossa história política, ela só impregnou, na verdade, os princípios políticos de pouquíssimos líderes. Já no Império, se pensava em federação. No entanto, com o advento da República, perdeu-se a oportunidade de estabelecê-la para valer. Os ideais republicanos mobilizavam uma minoria e quem passou a tutelar o país foram os militares. Antes e depois do advento da República, uma ínfima minoria de cidadãos participava realmente da vida política do país.

Antes e depois da República, o desenvolvimento do país se processou em algumas poucas ilhas privilegiadas de prosperidade, deixando à margem a imensa maioria do país, sobretudo o Nordeste, a Amazônia e o Centro-Oeste. O surto desenvolvimentista dos anos JK e do chamado `Brasil Grande' não atingiu os grotões do país, excetuada a região de Brasília. Apenas criaram-se mais algumas ilhas de prosperidade fora do núcleo Sul-Sudeste. No Nordeste, mesmo após a criação da Sudene, a indústria da seca prosseguiu em sua tradição de atraso econômico e corrupção eleitoral.

Outra observação que desejamos fazer é sobre o processo histórico no sentido da democracia, do respeito ao cidadão e aos direitos humanos, da participação na construção de uma sociedade justa, da civilização enfim. Durante décadas de Guerra Fria, era difícil imaginar uma Alemanha reunificada, uma Berlim livre do seu vergonhoso muro. Esse dia chegou, contudo. Helmut Kohl, que era chanceler (primeiro-ministro) da Alemanha Ocidental há dez anos, escreve: "Durante toda a minha carreira política, nunca duvidei de que a Alemanha fosse recuperar sua unidade em algum momento futuro. Mas jamais ousei sonhar que a reunificação dos dois lados pudesse se dar durante o meu mandato de chanceler". O mesmo se pode dizer do próprio fim da URSS e da libertação de seus satélites da Europa do Leste.

Outro caso emblemático de lento processo histórico é a questão da paz entre judeus e árabes. São cem anos de hostilidades, a metade deles, incluindo guerras importantes, depois da criação do Estado de Israel. Lentamente, vieram a paz entre este e o Egito, os avanços em outras frentes, até os Acordos de Washington (1993), uma grande abertura para o entendimento. Reconhecida pelos judeus a OLP (Organização de Libertação da Palestina), como legítima representante desse povo, o caminho estava aberto para a paz. A eleição de Binyamin Netanyahu como chanceler quase fechou esse caminho. Com a eleição do atual governo de Ehud Barak, as negociações para o cumprimento daqueles acordos estão sendo retomadas, com esperança razoável de que se concluam em um ano. Nem mais um atentado terrorista afastou palestinos e israelenses da mesa de negociações. Temos que fazer fé nos processos de paz. São lentos, penosos, com avanços e retrocessos, mas terminam com um final feliz.


Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo