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Ele, Anselmo, é mentiroso Está nas livrarias o último depoimento do cabo José Anselmo dos Santos, a fantástica figura que passou de líder de uma rebelião de marinheiros em março de 1964 a dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária e acabou transformado em agente da polícia política em 1971. Chama-se "Eu, Cabo Anselmo", e tem a forma de uma conversa com o jornalista Percival de Souza. Não chega a ser uma esquadra inglesa, até porque é a segunda versão de uma mesma história. A primeira, o cabo contou-a em 1984, ao repórter Octavio Ribeiro e resultou no livro "Por que eu traí". Anselmo mudou sua história em dois pontos. Um é apenas curioso. Em 1984 contou que se ofereceu à polícia, entregando-se no Museu do Ipiranga. Agora, revela que foi preso e torturado (o que negou em 1984). Fez bem, porque essa era a verdade. Uma vez apanhado, ou contava o que sabia ou morria. A segunda mudança é mentirosa. O último serviço que Anselmo prestou à polícia resultou no assassinato de seis militantes da VPR numa chácara da periferia do Recife, em 8 janeiro de 1973. Em 1984 ele contou que, desmascarado, avisou a polícia. Esperou a hora em que ficou sozinho no apartamento em que vivia e deu o fora. Agora, Anselmo informa que suas vítimas caíram numa armadilha depois de terem decidido executá-lo, por conta de uma ordem vinda de Cuba. Os seis supunham estar indo para a chácara onde o matariam, quando foram emboscados. É mentira. As seis pessoas assassinadas na chácara foram presas entre 7 de janeiro e a manhã do dia 8 em pelo menos quatro lugares diferentes. Aos fatos: O primeiro preso (José Manoel da Silva) foi capturado na véspera, à tarde, quando trocava o óleo do seu carro num posto de gasolina. A mulher de Anselmo, Soledad Barret Viedma, grávida de um filho seu, e Pauline Reichstul (irmã do atual presidente da Petrobrás) foram presas na butique Chica Boa, na manhã do dia do massacre (Pauline, amarrada, foi levada numa Variant do Incra, placa oficial nº 7831.) Os outros três foram capturados em lugares distintos. Um, na livraria onde trabalhava. Durante a emboscada, os seis mortos teriam disparado 18 tiros contra a polícia. Erraram todos. Em troca, tomaram 26 balas, 14 na cabeça. O cabo está encobrindo seis assassinatos. Se tivesse contado mentiras desse tamanho aos policiais que o capturaram, a lista dos mortos da ditadura teria mais um nome. O embuste de Anselmo foi desvendado pelo trabalho de Iara Xavier Pereira, da Comissão Nacional de Familiares de Mortos e Desaparecidos, que produziu um relatório de 1.200 páginas sobre o massacre da chácara São Bento. Suas principais revelações estão no livro "Filhos deste solo", do deputado Nilmário Miranda e do jornalista Carlos Tibúrcio, que também está nas estantes. Há um aspecto intrigante no depoimento de Anselmo. Ele sustenta que ficou numa situação injusta. Por ser esquerdista, foi expulso da Marinha, preso três vezes e torturado. Por ter traído, é um zumbi de 58 anos. Não foi beneficiado pela anistia nem pelas indenizações pagas às pessoas que processaram o Estado por tê-las prejudicado durante a ditadura. Uma coisa é o julgamento que se faz de suas escolhas. Outra é seu direito. Se Anselmo tivesse sido assassinado, sua família teria direito a uma indenização. Está anistiado, tanto como terrorista quanto como cúmplice de assassinatos. Não há lei que vede aos traidores o acesso ao seu direito. É provável que ele tenha razão. Aviso amigo A quem interessar possa: É da tradição dos cárceres brasileiros a ocorrência de motins e fugas em massa durante os grandes feriados, sobretudo nas festas de fim de ano. É do conhecimento de quem trabalha em presídios e cárceres de menores que a nobiliarquia da delinqüência pretende aproveitar o Ano Novo para armar a primeira grande confusão do Terceiro Milênio. Quem se surpreender com as rebeliões ganhará atestado de incompetência. Interesse terreno O PMDB e um pedaço do PFL estão mostrando um inédito interesse na manutenção do diretor de assuntos fundiários da Funai. Há uma lei infalível: sempre que há muitos brancos interessados na manutenção de um servidor que mexe com pepinos fundiários indígenas, há erva no terreno. Se o PMDB e o PFL não conseguirem manter o protegido, vão reclamar. Se conseguirem, poderão se arrepender. Registro Há cerca de dois meses Ciro Gomes revelou que "antes de sair do PSDB, me mandaram escolher um ministério pela quarta vez". Como o sujeito da frase ficou oculto, não se pode dizer quem lhe ofereceu os ministérios.Entendendo-se que, pelas leis vigentes, só o presidente da República oferece esse tipo de cargo, vale registrar que Ciro Gomes só foi convidado uma vez. Antes da posse de FFHH, em 1994, quando Ciro estava na Fazenda, o presidente eleito ofereceu-lhe o Ministério da Saúde. Fez isso com a melhor das intenções, pois sempre esteve convencido de que só os ministérios sociais poderiam dar futuro aos políticos que os ocupassem. Desde então, ofereceu-lhe café num encontro a sós, no Alvorada, e deu-lhe os pêsames, por telefone, quando morreu seu pai. Tunga arquivada Um grupo de sábios propôs ao Governo que tungue os 40% da multa que incide sobre o valor do FGTS e vai para o trabalhador quando ele é demitido. Como sempre acontece nesses casos, argumenta-se que a medida pretende beneficiar a escumalha. Já se disse que a abolição prejudicaria os negros e que a redução da jornada de trabalho para oito horas estimularia o alcoolismo da patuléia. Vale informar que essa proposta está catalogada na categoria de ficção científica. Vai para o arquivo. Há um gato na tuba do rigor fiscal Enfiaram um gato gordo na tuba do projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal. Em pelo menos um rascunho do substitutivo do deputado Pedro Novais (PMDB-MA) pretende-se usar uma lei destinada a produzir responsabilidade para beneficiar os irresponsáveis. Enfiou-se um artigo que obriga a União a assumir R$ 2 bilhões de dívidas feitas por governadores de dez estados junto a 30 empreiteiras. "No início do ano passado, por meio de uma astúcia parlamentar, enfiou-se noutra lei um dispositivo pelo qual a União tinha um prazo para assumir essas dívidas. O ministro Pedro Malan jogou bruto e, apesar das pressões, salvou a Viúva. Agora a macumba voltou com mais força, pois pretende-se dar um caráter imperativo à providência. Todos os contratos que resultaram em calotes foram assinados antes de 1994. Ou os governadores que assinaram os contratos foram irresponsáveis ou os que não pagaram as contas agiram irresponsavelmente. Pode ser que tenham acontecido as duas coisas, mas é certo que a Viúva federal nada tem a ver com isso. POESIA - A Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda sugeriu que a Brahma venda a Skol. Segundo ela, essa seria a melhor maneira de obter o beneplácito do Governo para a sua fusão com a Antarctica. O senhor vende a Skol? - De jeito nenhum. A SAE levou quatro meses para produzir um absurdo fantasiado de boa intenção. Fizeram isso dizendo que pretendem desestimular a concentração do mercado, mas a sugestão embute o contrário. Admitamos que a Brahma venda a Skol. Nesse caso, a AmBev, em vez de ficar com 49% do mercado, ficará com 42%. Admita que o nosso concorrente, a Kaiser, venha a comprar a Skol. Nesse caso, é ela quem passa a ter 42%, tornando-se o maior fabricante de cerveja do país. É uma sugestão maluca. As duas maiores empresas querem se fundir e o Governo faz uma recomendação que resulta na transformação da terceira em primeira. Esse não é o único absurdo do parecer. Eles disseram que não sabiam que a Skol era a marca mais vendida no país. Quem não sabe isso não sabe nada. Fizeram um estudo traçando um fluxo de fornecimento entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Por terem o mesmo nome, talvez tenham achado que esses dois estados fazem parte da mesma região econômica. Esqueceram-se de que não há tráfego de cerveja entre eles. Faltam estradas. Criaram a região, mas se esqueceram de combinar com o DNER. Quem abastece Mato Grosso do Sul é São Paulo. Mato Grosso do Norte tem fábrica em Cuiabá. - Juntas, a Brahma e a Antarctica não vão subir os preços? - Não. Eu lhe asseguro que, um ano depois de ter sido feita a fusão, a economia de custos chegará a 14%. Garanto que em um ano o preço real da cerveja cai em 5%. Assino em cartório. A esse respeito, há uma regra da concorrência à qual se deve prestar atenção. Sempre que duas empresas se juntam e o concorrente vê a possibilidade de os preços subirem, fica quieto, porque sabe que será beneficiado. Quando o concorrente estrila, pode ter certeza: ele está com medo de que os preços caiam. É isso que está acontecendo na reação à AmBev. - Que garantias o senhor dá para os empregados? - Também assino em cartório um compromisso da AmBev assegurando aos trabalhadores de qualquer fábrica que venha a ser fechada que a empresa os ajuda a formar uma cooperativa, lhes dá uma marca (no Sul, por exemplo, podemos dar a marca Serra Malte) e lhes garante assistência técnica durante a fase de organização da empresa. A AmBev já discutiu essa fórmula com a CUT e com a Força Sindical. A cooperativa precisará de capital. Eu acredito que um empreendimento desses possa ser enquadrado nos projetos do BNDES de incentivo às médias empresas e de preservação de empregos. Os trabalhadores se tornam donos da empresa. As fábricas que deveriam ser fechadas seriam vendidas pelo preço de custo da planta. É bom lembrar que na hipótese impossível da venda da Skol, surgiria a probabilidade de ela ser comprada por uma empresa estrangeira, do Hemisfério Norte. Pois bem, as fábricas americanas estão reguladas para produzir mais no verão e menos no inverno. Se a Anhauser-Busch comprar uma fábrica no Brasil, fará um grande negócio, exportando sua produção de inverno para cá, onde estaremos no verão. Vamos exportar empregos para os Estados Unidos. No caso do exemplo, para uma empresa que concentra 50% do mercado cervejeiro americano. A solução é vigiar a Vigilância Inúmeros médicos protestaram contra a proposta aqui publicada, na qual sugeriu-se aos pacientes que troquem de médico todas as vezes em que ele lhes der uma receita com vários remédios, pespegando-lhe um selo no qual determinam às farmácias que não os troquem por drogas genéricas. Os protestos variaram no grau de de aborrecimento. Alguns apontaram um erro grosseiro na grafia do genérico prednisona (dado como premisona). O pediatra mineiro Edson Lopes Libânio acha que seria mais certo trocar de colunista do que de médico. Já o alergista carioca Antônio José Mariz da Veiga sugeriu que, caso o signatário esteja disposto a comprar um remédio de laboratório de segunda categoria, o melhor que tem a fazer é consultar-se com um psiquiatra. O psiquiatra paulista Edson Nascimento, mesmo condenando o uso dos selos, ponderou, como todos os outros, que os remédios genéricos ainda não existem. Os genéricos ainda não chegaram ao mercado. Atualmente eles se fantasiam como se fossem similares. Os médicos sustentam que há uma diferença muito grande entre uma droga vendida por um laboratório tradicional e o mesmo princípio ativo, saído de um fabricante desqualificado. Têm toda razão. O fato de já ter aparecido uma ciclosporina de má qualidade e a ação da Vigilância Sanitária, caçando o laboratório Bemen, que nem se sabe onde fica, mostram que há o risco de se criar um mercado para vigaristas. Um lote de ampicilina daquele laboratório simplesmente não tinha eficácia terapêutica. Há, de fato, o risco de o mercado vir a ser infiltrado por aventureiros. Os médicos não têm como conjurar esse risco e é razoável que protejam os pacientes, receitando-lhes marcas tradicionais. A tarefa de fiscalização da qualidade dos remédios é da Agência de Vigilância Sanitária. Se a Vigilância for vigiada, a vigarice perderá espaço. O Ministério da Saúde já proibiu as receitas carimbadas ou seladas. Quando o médico não quiser que seu remédio seja substituído, basta que faça a prescrição numa folha separada, com a recomendação manuscrita. Isso não lhes limita a liberdade de receitar. Também não custa dinheiro. |
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