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SÉRIE B
Vitória do homem simples

por WLADMIR PAULINO

Veio tudo de roldão na vida de Nereu Pinheiro - Nelivaldo Marques Pinheiro na certidão de nascimento. Num dia, estofador e dublê de zagueiro do Condor, equipe amadora de Olinda. Amanheceu e lá estava ele como técnico da equipe, de onde sairia para outras 17. Isso com direito a ressureições em estado terminal, títulos garfados por arbitragens e vários jogadores revelados para o cenário nacional. "Tudo que aconteceu na minha vida foi com a graça de Deus", agradece.

De fora, pode até parecer charmosa uma vida tão agitada - ou aventureira, se preferirem. Mas o buraco era mais embaixo. Menino pobre, Nereu passou necessidade por muito tempo. Primeiro porque perdeu o pai com pouco mais de um ano. Segundo, era o primeiro e único homem dos 12 rebentos (oito já falecidos) de dona Maria José Pinheiro e, como não é difícil de se prever, arrimo de família. "Trabalho desde os 13 anos", recorda.

Mas nem as responsabilidades do lar e as `broncas' da mãe quando ia jogar bola na rua, diminuíram o amor pelo futebol. Até o pão de cada dia era deixado de lado, literalmente. Uma das tarefas de Nereu era trazer pão e leite todo dia para casa, no bairro de Sítio Novo, Olinda, onde nasceu há 50 anos. Passavam-se horas até a mãe dar uma olhadinha pela janela e ver o jantar encostado entre as traves e o filho, suado, numa animada `pelada'. "Jogava de zagueiro, era muito viril, mas não jogava bem", reconhece.

Só que a vida não se resumia apenas à bola. Toda criança que se preza tem que subir no coqueiro para beber a água na hora, jogar botão e estudar. Só que esta última o treinador teve que deixar um pouco de lado. "Estudei até o segundo ano ginasial (6º série)", conta. Só os coqueiros da vizinhança é que padeciam nas mãos - e boca também - de Nereu. Uma bela maneira que ele encontrou de unir o útil ao agradável. "Bebia a água e comia a lama (parte branca comestível)", diz. Já a quenga da fruta servia de matéria-prima para os times de botão.

Nada que provoque reclamações de mamãe Maria José para quem o filho nunca deu trabalho. Ela concorda que, no início, imaginava um futuro diferente: advogado, médico etc. Mas não adiantou, a paixão pelo futebol já seduzira o futuro treinador. "Quando ele quis seguir carreira no futebol dei toda força", aponta. Dona Maria José ainda mora em Peixinhos, com a irmã Severina Marques Pinheiro e uma das filhas, Leziana Rosa Pinheiro. Fácil é descobrir o time do coração do trio. "Nereu Futebol Clube", dizem em uníssono.

HUMILDADE - Bem diferente da maioria dos técnicos brasileiros, cujo estrelismo e arrogância chegam a irritar, Nereu faz o estilo `da galera'. Da mesma forma que o atacante Valdomiro, ele credita às origens, dele e da torcida coral, como o principal fator da empatia. "Somos humildes, batalhadores, bem parecidos", constata. No contato com os atletas ele também faz um estilo `alternativo'. "Tem que falar a linguagem do jogador, sempre dar uma palavra de apoio", acredita.

Teorias mirabolantes e gravatas italianas também não fazem parte do repertório de Nereu. Ele prefere ser apenas gente, com gostos de gente, como cerveja de boteco, manhã de sol com a família, forró numa casa de show e, é claro, um joguinho de futebol. "Só vou usar paletó e gravata se virar uma regra entre os treinadores brasileiros", comenta.

Todo esse despojamento na prática reflete-se na teoria. O treinador nunca freqüentou cursos para treinadores e faz pouco caso da cátedra, principalmente pela cultura do imediatismo reinante no futebol brasileiro. "Num país em que o técnico leva duas lapadas e é demitido não há tempo para teorias. Talvez na Europa funcione", alfineta. Até o quadro-negro ele aboliu das preleções.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo