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COMPORTAMENTO
Virgindade

por FABIANA MORAES

Se um homem achar moça virgem que não está desposada, e pegar nela, e se deitar com ela, e forem apanhados, então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta ciclos de prata; e uma vez que a humilhou, lhe será por mulher; não poderá mandá-la embora durante a sua vida" Deuteronômio, 22, 28 e 29. Uns dizem que é coisa ruim, do final dos tempos. Outros, que é comum, natural a todos os seres vivos. No final, uma coisa é certa em meio a tanta discussão: a existência - ou não - de um hímen ainda divide opiniões, principalmente no ambiente doméstico, longe dos discursos mais liberais.

O comportamento, assim como a maioria produzido pela sociedade, é cíclico. Se dos anos 80 até meados dos 90 ser virgem e defender a questão era coisa reservada apenas aos mais puritanos, hoje já é possível encontrar discursos sobre a preservação da virgindade com menos culpa e hesitação. A `nova' postura vem gerando opiniões mais exageradas, como se viu em vários outdoors espalhados pela cidade, que afirmavam a máxima: "Virgindade é prevenção".

A campanha, de autoria da igreja Assembléia de Deus, tinha como objetivo alertar os jovens para os `perigos da carne'. "Sexo sem casamento é prostituição", afirma o pastor Isaac Silva, um dos coordenadores da campanha. A universitária S.C.B.S., 26 anos, compartilha da opinão do pastor Isaac, embora não chegue a afirmar que praticar relações sexuais antes de trocar as alianças seja pura perdição. "A virgindade é um dos grandes valores da mulher", afirma a estudante universitária.

S. faz parte da Igreja Presbiteriana, de fundamento cristão (que prega a castidade até o casamento), mas assegura que sua decisão em permanecer virgem não está ligada a nenhuma norma ou imposição religiosa. "Sentir prazer é uma questão apenas pessoal", acredita. Ela quer casar virgem, com o homem que ame e espera que sua primeira noite de sexo seja absolutamente maravilhosa. "Atualmente, as pessoas acham tudo normal, por conta da inversão de valores", comenta.

A assistente social A.C.B.S, 25, é irmã de S. e faz parte da mesma igreja. Como a irmã, quer se manter virgem até o casamento, embora sua visão a respeito da castidade seja um pouco diferente. "Não levanto bandeiras, apenas afirmo que essa é minha opção. Acho que hoje as pessoas estão influenciadas pelo excesso de informação". Segundo A., existe uma grande pressão social para que as mulheres percam a virgindade ainda na adolescência. "Várias vezes as pessoas olham para mim, incrédulas, porque ainda sou virgem".

A reclamação de A. é realmente procedente. A psicóloga Semíramis Prado, que há cinco anos trata de pacientes com problemas sexuais, diz que hoje existe uma tendência cada vez mais precoce para o início da vida sexual, tanto feminina quanto masculina. "Atualmente, perde-se a virgindade porque simplesmente se acha que é preciso transar cedo", resume. O fato, segundo ela, vem resultando numa verdadeira horda de pessoas com sérias disfunções sexuais por conta de um começo de atividade sexual insatisfatório. "O sexo passa a ser visto apenas como desempenho, não como uma relação onde pode acontecer carinho ou afeto".

SEXO ESPETÁCULO - O estudante universitário Juliano Dourado (o nome é fictício, para evitar conntragimentos, segundo o próprio Juliano), 20, ainda não teve sua primeira relação sexual. Falta de oportunidade? O estudante jura de pés juntos que não. "Já cheguei muito perto, mas, na hora H, faltou coragem. O problema é que ela também era virgem e ficamos muito nervosos", lembra. Apenas poucos amigos sabem do `segredo' de Juliano, que teme ser alvo de chacotas por parte dos amigos que já transaram com uma garota. Juliano, mais do que ninguém, sente na pele a cobrança para que sua vida sexual tenha início o mais rápido possível.

"Estamos numa época em que sexo se tornou obrigação. O apelo para que se pratique uma relação sexual é tão grande que muitos já querem se manter virgens para ser diferentes dos demais", acredita a psicóloga Amparo Caridade. Ela aponta um dos fenômenos sociais mais contraditórios dos últimos tempos: o excesso de discussão sobre sexo e a curiosa falta de preocupação real pelo assunto. "Se uma mulher revela que transa mas não goza, a sociedade acha um absurdo. A menina, por sua vez, pode praticar sexo sem penetração para continuar a acreditar que é uma pessoa `pura'", comenta.

OS ÍNDIOS E O HÍMEN - Se em meio à dita `sociedade civilizada' a virgindade ou sua falta é um tema tão importante, para diversas tribos brasileiras espalhadas na região amazônica sua presença é quase ignorada. O antropólogo Roberto Athias, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estuda há 26 anos a tribo Hupde-Maku, localizada na fronteira Brasil-Venezuela. "Lá, as crianças são iniciadas na vida sexual por volta dos sete anos de idade. Ser virgem ou não é um fato sem importância para eles. Nestas tribos, vergonha para uma mulher é ser estéril", comenta o professor, lembrando que a castidade só veio a se tornar importante para algumas tribos depois do contato com o catolicismo. "As tribos pernambucanas, por exemplo, não se diferenciam de uma família urbana ou sertaneja no que se refere aos valores", explica.

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Jornal do Commercio
Recife - 14.11.99
Domingo