LG_jc.gif (3670 bytes)


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

Romário

A torcida do Flamengo é um braseiro só. Arde por perder Romário, arde por ter se livrado dele. Pelo menos é o que diz a pilha de e-mails que encontro, voltando de uma viagem profissional à Bahia. E como a polêmica fica mais acesa se é simplificada, metade desanca Romário, metade desanca o presidente do clube, Edmundo Santos Silva.

Pra variar, sobram alguns tições aqui pro cronista. Estranham que eu defenda Romário, dando, assim, uma força pública à indisciplina. E lá vou eu ter que me explicar a uma corrente que acha que o clube não pode vacilar, sob pena de perder o pulso da equipe.

Não me detive no episódio em si. Preferi ir mais fundo, condenando a burrice, a insensatez que é a concentração. Trancar os jogadores, dois dias e duas noites, antes de uma partida, é de uma estupidez siderúrgica. Está provado que exaspera os jogadores. A rapaziada cai no desânimo e até mesmo na indignação. Acaba sendo uma farsa porque quem não foge da concentração fica no quarto, insone, consumindo energias no carteado brabo, a valer grana grossa.

É claro que o Flamengo tem pleno direito de enquadrar os jogadores, proibindo saídas noturnas. Está na regra do jogo, aceita pelos profissionais. Acho, porém, que, no caso especial de Romário, a pena talvez tenha sido desproporcional ao ato por ele cometido. Além do que seria bem mais eficaz que, no caso de indisciplina, o castigo fosse feito em multa.

Multa pesada, pra doer o bolso.

Vejamos o caso de Edmundo, no Vasco. Houve lá um desaguisado entre o craque e o clube. Ora, se Edmundo errou, em vez de suspensão, multa nele.

Quando a pena acerta o bolso do jogador, a conversa é outra. O Vasco não fez isso. Simplesmente, afastou o craque do time. Quer dizer: deu-lhe férias remuneradas. É prêmio e não castigo.

Que o digam os jogadores europeus. Lá pisou na bola, seja em campo, seja fora de campo, o clube se vinga no dinheiro do faltoso. Eu me lembro de uma história, sempre contada pelo próprio Amarildo. Estrelíssima, Amarildo foi jogar no Milan. Em certo jogo, desacatou o árbitro, num lance irrelevante. Foi expulso. Na semana seguinte, quando passou no caixa pra receber, estava multado em 60 por cento do salário. Uma cacetada no orçamento do jogador.

Tudo indica que o presidente do Flamengo pegou pesado no caso de Romário, um tanto pra marcar um novo tempo no clube, - o que não deixa de ser respeitável - outro tanto pra encerrar, de vez, uma relação que já não era das melhores. O temperamento de Romário provoca idiossincrasias. Propicia crises. Ele é tinhoso mesmo. Exige prerrogativas de que se julga merecedor pelo tão grande artilheiro que sempre foi. E, convenhamos, a vida é assim: costuma ser tolerante com os craques rebeldes, justamente em nome das imunidades do talento.

Tanto é verdade que, trocando o Flamengo pelo Vasco, Romário vai continuar a desfrutar as delícias da noite. É o lado cabaré dele, como era o de Garrincha, de Renato Gaúcho e, mais remotamente, de Leônidas, de Zizinho, de Danilo; só não era o de Jair da Rosa Pinto porque o Jajá era coroinha de uma igreja em Madureira.

ROMÁRIO 2 - Era uma vez um cavalo muito inteligente. No cânter, o cavalo encostou na cerca e, com voz clara e firme, disse a um apostador: "Joga em mim que eu vou ganhar!" O homem quase desmaiou de susto. Mas nem pensou duas vezes: foi lá no guichê e apostou tudo o que tinha no bolso no cavalo confidente.

Finda a corrida, o tal cavalo fechou a raia. Indignado, o homem quis tomar satisfação com o cavalo: "Canalha, você me traiu! Estou arruinado."

O cavalo, de consciência tranqüila, respondeu: "Eu acho que já faço muito sair por aí, falando, e você ainda quer que eu acerte o páreo?"

Assim deve pensar o Romário: "fazer o que eu faço, em campo, e ainda vão querer que eu durma com os anjos - é querer muito!"

ROMÁRIO 3 - O caso Romário virou samba-do-crioulo-doido. Agora, tem leitor que me escalpela porque ouso comparar Romário com Pelé e Garrincha. Em que termos, sinceramente, não sei. Cito os três, como poderia citar dezenas e dezenas de jogadores, pra ilustrar minha teoria de que concentração é pura estupidez. O jogador não tolera. Quem não tem peso atômico silencia sua revolta; quem tem se rebela, foge do hotel e vai curtir a noite. Curioso é que a concentração é tão contraproducente que acaba virando álibi pra quem é casado. Sem concentração, o cara não teria habeas-corpus pra ir à boate.

Fugir da concentração é mais fácil que fugir de casa. É preferível driblar o bedel da concentração do que driblar a mulher com quem se divide a cama.

Abaixo a concentração! Chega de hipocrisia!

RÁPIDAS E RASTEIRAS - Ninguém pense que o Gama é um coitadinho. A apoiá-lo, nessa cruzada, o Gama tem Brasília em peso. Brasília não é mais uma cidade sem identidade futebolística que torcia pelos times do Rio. Brasília, hoje, é o Gama, com seu time bem formado, destemido e que fez um campeonato brasileiro melhor que o Botafogo, que o Inter e que não merecia ter sido passado pra trás como foi pelos tenebrosos bastidores da CBF. ****** O time do Botafogo, inteiro, já é um desacerto; desfalcado, foi uma calamidade, no jogo com o Coritiba, meio-da-semana. O Botafogo de 1999 tem sido de cortar o coração.

Correspondências para "Na Grande órea": Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 -Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E_MAIL: xapuri@armandonogueira.com.br


Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo