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Rememorações por FÁTIMA QUINTAS* O vento soprava forte na sacada mourisca do velho sobrado. A moça olhava com uma calma artificial o vaivém do amanhecer. Ao longe, a paisagem desenhava uma vasta planície recoberta por um excitante canavial. A folhagem cerrada indicava uma safra generosa a merecer vênias efusivas. Há muito não se registrava uma fartura tão anunciada. Os anos anteriores tinham sido avaros em semeaduras. Agora, o massapê explodia suas pulsões numa terra avermelhada, cheia de ginga, plena de erotismo e sensualidade. A gleba pegajosa deixava-se invadir pela doce modelagem de firmes pegadas, rendendo homenagens ao plantio de uma monocultura quase absoluta. Rebelde no seu totalitarismo, o massapê portava-se com máxima autoridade, muito à vontade para repelir as pequenas colheitas de sobrevivência. O cenário multiplicava-se numa repetição aparentemente sem fim. O desfile das folhas acompanhava a dança do vento que as curvava na cadência de um pendular ir e vir. O mundo estava ali, imenso intransponível, avesso às inúteis demarcações. Rosto jovem, bonito, alagado de juventude, Maria Odete presentificava-se no instante da sacada. Era verão, o sabiá cantava na janela, o dia rebentava em luminosidade, o derredor florescia tão vívido que o pensamento reclamava a saudade que não queria solidificada. Doía, doía muito recordar Marcos. Lutou para esquecer. Não esqueceu. Quisera tanto virar a página do enredo, mas a imagem persistia como um camafeu que se guarda na gaveta secreta da cômoda, de modo a preservá-lo de possíveis arranhões. Um dia, o frágil camafeu escorregou da envernizada superfície da mesa de cabeceira e partiu-se. Não sobrou o menor estilhaço. Foi naquele incógnito canavial que tudo aconteceu. Ela, com 17 anos. Ele com 19. Os dois assustadoramente envolvidos na emoção de se tocarem, de se beijarem, e se olharem... A terra molhada a cobrir a pele alcatifava o corpo num gesto de lascívia. Maria Odete fechou os olhos e reavivou a fotografia jamais pendurada na parede. Apertou as mãos numa terna fricção e reteve a miragem que um dia não muito distante se concretizara tal qual o sonho da menina que desejou adivinhar os presentes espalhados ao redor da árvore de Natal. Levemente torceu a maçaneta da porta, evitando qualquer ruído, deu dois passos na direção da sala, voltou-se, olhou de novo pelas frestas do vidro, não resistiu à sedução do inatingível canavial. Retornou à sacada buscando alguma coisa, talvez a necessidade de sorver o cheiro da terra molhada. Inspirou fundo. Era a última vez que se permitia rememorações. Desceu correndo a sólida escada de madeira. Não havia ninguém. Os aposentos cresciam na imensidão do vazio, os quartos, o corredor, o terraço no desvão do fundo. Apressou-se. O silêncio eloqüente repetia palavras não ditas. Não fazia sentido mencioná-las àquela hora. Para quê? E para quem? O carro de boi assobiava a melodia antiga. O homem entretido com a marcha sonolenta conservava a pureza de quem convive placidamente com um cotidiano abúlico. Maria Odete não queria ser vista. Afinal, o tempo passara e o que ali restava era somente um retrato fora de foco. Entrou no automóvel, acelerou o motor, desapareceu no conhecido caminho de barro. No banco, ao lado, depositou discretamente uma caixinha de veludo vermelho escuro. A cor intensa e vibrátil lhe transmitiu o fulgor do passado. Era a derradeira lembrança. * Fátima Quintas, escritora, é antropóloga da FJN. |
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