LG_jc.gif (3670 bytes)

PESQUISA II
Grupos lutam para continuar a tradição

Apesar de não estarem na mídia como os maracatus, bandas mangue e grupos de coco, os pastoris permanecem vivos nas comunidades do Grande Recife. Atualmente, existem cerca de 50 grupos espalhados em bairros como Água Fria, Ibura, Cordeiro, Várzea e em dezenas de escolas e associações. Dois exemplos são o Pastoril Menino Jesus da Vovó Bibia e o Sol Nascente, formado por integrantes do Balé de Cultura Negra. Este último mantém a tradição de armar um presépio natalino, que fica aberto à visitação pública durante todo o mês de dezembro, e da queima da Lapinha, no Dia de Reis.

O Pastoril Jesus Menino foi fundado há 15 anos por Severina de Araújo Brito, 84 anos, mais conhecida como Vovó Bibia. "Sempre quis dançar pastoril mas o meu pai nunca permitiu. Só pude realizar o meu sonho e, mesmo assim, através das minhas netas. Resolvemos criar o Menino Jesus para homenagear o meu marido, no seu primeiro aniversário, após a morte. Ele era um homem festeiro e aniversariava no dia 23 de dezembro, ideal para um pastoril", explica a matriarca da família Brito. Atualmente, o Menino Jesus reúne 16 crianças e jovens, com idades entre 4 e 15 anos. O grupo apresenta-se em hospitais, praças, shoppings e na paróquia de Santa Terezinha, no Cordeiro.

Além das dificuldades financeiras, comuns aos grupos de cultura popular, o pastoril de Vovó Bibia enfrenta problemas típicos da adolescência. "As meninas estão crescendo e não querem mais dançar", lamenta a fundadora. Para aumentar a permanência das garotas a avó instituiu pequenos cachês.

As pastoras do Sol Nascente não contam com o mesmo incentivo das netas de Vovó Bibia, mas dançam com a mesma disposição. Existente há 26 anos, no bairro de Água Fria, o grupo é liderado por Ubiracy e Antônia Ferreira. O casal de diretores do Balé de Cultura Negra trouxe o pastoril do município de Barreiros. "Não dá para saber a idade exata do pastoril, porque ele foi criado pelos meus bisavós", explica Ubiracy, 64 anos.

Segundo ele, as maiores dificuldades para se montar um pastoril é mesmo a falta de recursos. "É uma luta. As meninas ensaiam na rua, de noite e nos finais de semana, porque não temos um espaço para ensaiar. Manter as roupas em ordem também é complicado, apesar de nós mesmos costurarmos as peças. Isso sem falar no cachê dos músicos e aluguel das caixas de som para fazermos as apresentações".

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 22.11.99
Segunda-feira