ÍCONE
Um espelho subversivo
que refletia o BrasilSubversivo,
maldito, marginal. Adjetivos que pessoas comuns
refutariam, Plínio Marcos trouxe para si. Como costumava
dizer, ele recusou a "prostituição
intelectual" para ganhar dinheiro e notoriedade.
Preferiu a liberdade da rua para criar, à sua maneira, a
realidade que via lá fora. Deste modo, o dramaturgo
paulista - tido por muitos críticos como o maior de
todos ao lado de Nelson Rodrigues - colecionou rótulos
como "o louco que escreve palavrões", "o
pirado que vende livro na rua", ou apenas, "um
boca suja". Viveu com uma intensidade insana, mas
até mesmo sua vida acelerada não o entendeu, dando-lhe
uma morte lenta.
Morreu sexta-feira passada vítima de
falência múltipla dos órgãos no Instituto do
Coração de São Paulo (Incor), onde estava internado
há mais de um mês. O dramaturgo, ator e escritor nasceu
em 29 de setembro de 1935. Foi em sua cidade natal,
Santos, onde montou sua primeira peça teatral, Barrela,
de 1958, que lhe rendeu o cognome de "maldito".
Abandonou os estudos formais ainda no primário,
autodenominando-se um "escritor analfabeto".
A subversão transparece em sua obra,
no teatro e na literatura. O romance Na Barra do Catimbó
é considerado por muitos como uma obra-prima, e
comparada ao Dostoiévski, que tanto Plínio admirou.
Sempre mostrou força nos diálogos, com riquezas de
descrição do submundo.
Apesar da `carreira marginal' Plínio
Marcos conquistou vários prêmios, de Molière ao
Golfinho de Ouro. Peças, como Navalha na Carne, ganharam
versões para o cinema. Outro grande sucesso foi Dois
Perdidos Numa Noite Suja com montada diversas vezes. Sua
última obra foi O Truque dos Espelhos, livro
autobiográfico de contos, lançado em outubro deste ano
pela Una Editoria. O livro relata a passagem do escritor
pelo circo, local onde conheceu a artista Patrícia
Galvão, a Pagú, aquela que o revelou para todo o
Brasil.
REPERCUSSÃO - "Ele é uma
das referências da dramaturgia brasileira. Sempre tive
simpatia por tipos como ele, os `mal comportados'",
disse o dramaturgo pernambucano João Falcão. "O
teatro perde uma grande escritor, ator e, por quê não
dizer, uma pessoa que rompeu com as barreiras do normal,
do certinho", comentou a atriz e presidente do
Sindicato dos Artistas, Ivonete Melo. "Plínio
Marcos foi um homem que não se curvava à cultura
`neocolonialista'. Foi o último dramaturgo marginal,
múltiplo e do povo. Não temos mais profissionais como
ele", ponderou o diretor João Dennys.
-----------------------------------------------------------------------