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Irreverência e malícia temperam o pastoril profano

Saem as pastorinhas angelicais, entram as `endiabradas'. Saem as ladainhas religiosas, chegam as sátiras sociais. É assim que a estrutura do pastoril se transforma numa encenação picante que seria capaz de fazer gelar padres e freiras se fosse apresentada nas calçadas das igrejas, palco da versão religiosa do folguedo. O pastoril profano surgiu como uma corruptela do pastoril natalino. No começo, era representado por prostitutas e parodiava as músicas de saudação ao Jesus Menino, usando as mesmas canções, mas com letras diferentes. Muito pouco indicado para um público familiar, suas aparições ficavam restritas a áreas afastadas do centro ou das praças. Por isso, também ficou conhecido como `pastoril de ponta de rua'.

Hoje, apesar de ainda manter as mesmas características, o lado profano da brincadeira já foi inserido nas tradições artísticas populares pernambucanas e o lado profano da brincadeira conta com alguns representantes locais. Dois dos mais conhecidos e atuantes são o Velho Xaveco e o Véio Mangaba, que se apresentam não só em palcos abertos, como também em teatros e programas de televisão.

Há mais de dez anos trabalhando com o `pastoril de ponta de rua', Antônio Coutinho, 64 anos, o Velho Xaveco, é um exemplo de dedicação à cultura popular. Ele mantém com recursos próprios o aluguel de um depósito para guardar os objetos que pertencem ao pastoril e uma linha telefônica, "para as pessoas marcarem os shows", explica. "No ano passado, a situação estava melhor. Mas a crise financeira afetou as prefeituras e esse ano nós recebemos poucos convites para participar de festas", lamenta Antônio. É que, por ironia do destino, a principal fonte de renda do Pastoril do Velho Xaveco são as celebrações religiosas dos santos padroeiros das cidades do interior. Depois da missa, findas as últimas badaladas do sino da igreja, os festejos ganham seu lado profano.

"A gente espera passar das 22 horas para poder iniciar a encenação. O pastoril profano tem que ter um pouco de crítica social e política, mas a brincadeira mais picante e libidinosa não pode faltar. Por isso, não pode começar muito cedo", recomenda Antônio. Nas apresentações do Velho Xaveco, o repertório inclui canções do Pastoril do Velho Faceta, de Dewett Cardoso, Pai Gay, Bernardo Alves e do artista. As suas favoritas são Sai Mosquito, O Velhinho Quer Viagra, No seu Papeiro e Baile do Pau no Meio. Estas e mais outras 14 músicas de enredo semelhante vão estar no CD Arte de Ser Profano, gravado no estúdio Mega Music e que será lançado em dezembro.

"A picardia, a safadeza, o erotismo e a sacanagem são ingredientes fundamentais do pastoril `de ponta de rua', explica Xaveco. Para ele, o palco é um dos melhores momentos da vida. "Gosto da maneira como o velho se comunica com a platéia. Ele diz coisas que muitas vezes o público gostaria de dizer. É por isso que ele é tão aplaudido. Tenho 64 anos, mas tenho energia ainda para muitos shows", destaca.

Com o mesmo gás de Xaveco, o herdeiro mais novo do pastoril profano em Pernambuco é Walmir Chagas, que também atende pelo nome de Véio Mangaba e Suas Pastoras Endiabradas. Para Walmir, a graça do pastoril está na maneira com que o folguedo representa a expressão popular, a crítica política, social e a vertente erótica do povo brasileiro. "É um espetáculo cênico perfeito. Mescla música, canto, dança, humor, sensualidade e interpretação. Por admitir a inclusão de tantos elementos, esse folguedo está sempre se renovando, incluindo temas novos, e, por isso mesmo, seu formato foi adaptado até para a TV. O programa do Chacrinha, o Velho Guerreiro e suas chacretes, tinha muito da estrutura do pastoril", observa o Véio Mangaba.

Outro ponto de vitalidade apontado por Walmir é a diversidade presente numa apresentação de pastoril. "A gente pode tocar coco-de-roda, ciranda, embolada, forró e até os hinos religiosos. A única exigência é que as letras tragam a paródia e os elementos necessários para dar o tom de profanação à festa. É por isso que o pastoril tem uma vida tão longa, porque ele é um camaleão, está sempre se transformando. O pastoril nunca vai se acabar". Que os anjos digam amém.

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Jornal do Commercio
Recife - 22.11.99
Segunda-feira