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ARTIGO

Brasil para todos

por MOZART NEVES RAMOS*

A moeda do século XXI será o conhecimento. Os países serão divididos em dois blocos: os que produzem conhecimento e os que não produzem. Esta concepção também se aplica internamente aos países de tamanho continental como o Brasil, sobretudo neste, marcado por uma forte desigualdade sócio-econômica entre as suas diferentes regiões. Assim posto, não provê-las de condições para a produção de conhecimento, dando oportunidades legítimas para seus pesquisadores, já distribuídos de maneira tão desigual, irá aprofundar, mais ainda, o grande fosso social que nos separa. Reduzir este abismo é dever de todos. Não é isso, entretanto, que sentimos do Ministro da Ciência e Tecnologia, Bresser Pereira, ao afirmar, no último número do Jornal da Ciência, editado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que "se você quer investir em ciência no Nordeste, você está colocando capim na frente dos bois...você vai jogar dinheiro fora".

É lamentável que um Ministro de Estado, de um Governo que se diz preocupado com os graves problemas sociais vigentes no país, dê uma declaração tão infeliz e discriminatória como esta. Na verdade, falta ao Ministro Bresser uma visão antecipatória, que se exige de todos aqueles que fazem e são responsáveis pela ciência de um país de vanguarda. Não posso, neste momento, deixar de me pronunciar, como regularmente tenho feito em defesa da universidade pública, do ensino gratuito e da ciência e tecnologia, seja como cidadão e pesquisador, mas também como reitor de uma universidade pública do Nordeste brasileiro, que apesar disto, Senhor Ministro, está entre as dez melhores universidades brasileiras.

Não é a primeira vez que isso acontece. Recordo-me que numa determinada reunião do CNPq foi afirmado que o problema da UFPE estava no fato de que ela estava situada no Nordeste! Quando sentimentos como estes afloram no seio daqueles que deveriam tornar o país mais justo e igual para todos, preparando-o para um novo tempo, o do conhecimento, fico verdadeiramente preocupado com o futuro das novas gerações. Que país nós queremos? Vivemos, hoje, especialmente nas grandes cidades brasileiras, dramas sociais sem dimensões, em decorrência da fome, do desemprego, da falta de oportunidades, gerando uma enorme onda de violência. Se não cuidarmos por igual do jardim de nossa Casa, uma Casa chamada Brasil, estaremos pregando um futuro desastroso para este belo país, extremamente rico pela sua diversidade cultural.

E lutarei por esta igualdade de possibilidades, inspirando-me no grande líder do povo sul-africano, presidente Nelson Mandela, a quem a UFPE outorgou o título de Doutor Honoris Causa, que em seu livro "Contra Todo Racismo afirma "tenho cultivado o ideal de uma sociedade livre e democrática, na qual todos possam viver unidos em harmonia, com iguais possibilidades. É um ideal pelo qual espero viver". É chegada a hora da verdade, do Presidente Fernando Henrique Cardoso, tomar para si a responsabilidade de construir um país para todos, sem discriminação de nenhum tipo, inclusive científica, em respeito daqueles nordestinos que ajudaram a tornar este país menos desigual, como Nelson Chaves, Oswaldo Lima, Bezerra Coutinho, Newton Maia, Paulo Freire, Josué de Castro e tantos outros que já se foram.

Mas também daqueles que aqui ainda estão e continuam a obra destes últimos, motivando as futuras gerações de cientistas para garantir um país verdadeiramente soberano. E não nos esqueçamos de Dostoiévski "a razão da existência humana consiste não somente em viver, mas em um motivo para viver". Por último, cito Gonçalves Dias "Minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá/ as aves que aqui gorjeiam/ não gorjeiam como lá". O lá é lá fora, aqui todos devemos ser um único e verdadeiro povo de uma nação chamada Brasil.

* Mozart Neves Ramos é reitor da UFPE


Jornal do Commercio
Recife - 23.06.99
Quarta-feira

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