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CINEMA
Sob o domínio da força

por KLEBER MENDOÇA FILHO

Escrever algum tipo de análise crítica sobre o novo Guerra Nas Estrelas Episódio 1 - A Ameaça Fantasma (Episode 1 - The Phantom Menace) parece tarefa inútil. É como criticar uma feira de verduras ou um congresso de odontologia. Não se trata de um filme que precisa ser visto, mas de um evento que, tudo leva a crer, será freqüentado. Este evento é uma promoção de George Lucas, homem do cinema e da tecnologia que parece ter se transformado, ele próprio, num holograma digital que tenta se passar por ser humano.

O que Lucas organizou aqui foi uma massa mecanizada de sons e imagens desamarradas por uma história que não computa junto ao espectador. Mesmo assim, e, aí está o mistério, este mesmo espectador é esmurrado rumo à total submissão pela descarga áudio-visual apresentada e (esta é a boa notícia) transportado, durante pouco mais de duas horas, para a famosa "galáxia muito, muito distante", mesmo que esta viagem seja nula em graça ou significado. Este Episódio 1, que já arrecadou U$ 328 milhões nas bilheterias americanas (sexto lugar no ranking histórico) estréia no Brasil à meia-noite de hoje, num lançamento que irá dispor de 340 cinemas, dez no Recife.

Para anular possíveis acusações de que este crítico não é fã da série, é bom saber que eu tinha 9 anos quando vi Guerra Nas Estrelas pela primeira vez, em fevereiro de 1978, no extinto Cinema Boa Vista, Recife. Assim como milhões de crianças, saí do cinema com os olhos esbugalhados e a imaginação estimulada. Hoje, 21 anos depois, é óbvio que fica mais difícil me entregar por completo aos prazeres industriais da luz e da mágica. Além disso, analisando objetivamente, o grande problema deste Episódio 1 é que parecem ter mexido na sua fórmula.

No primeiro Guerra Nas Estrelas (1977), havia uma simplicidade narrativa que evocava os antigos seriados das matinês. O filme de Lucas resumia-se a, basicamente, um grupo de heróis de papelão simpáticos (ou engraçados) atirando nos homenzinhos de atitude e design fascista (o Império). Esses homenzinhos tinham como líder uma interessante figura mascarada e toda vestida de preto, representando o mal (Darth Vader, um ladrão de cenas).

Com uma seqüência de ação bem bolada e funcional a cada, digamos, 12 minutos, e uma prodigiosa apresentação técnica de sons e imagens que ninguém nunca havia ouvido ou visto antes, o filme acertou em cheio e fez história, levando às seqüências O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980), tido como o melhor episódio da primeira trilogia com sua narrativa complexa, mas trágica e envolvente, e O Retorno do Jedi (The Return of the Jedi, 1983), considerado o pior, com uma mistura irritante de problemas freudianos e aqueles Ewoks de pelúcia.

Neste Episódio 1, não há simplicidade na trama, que também não é bem contada. Ambientada em pelo menos quatro planetas, há um matraqueado incrivelmente chato sobre federações, diplomacia, tratados e, até mesmo, impostos que não merecem tomar aqui o tempo do leitor, pois o filme se encarregará de, ele próprio, fazer você perder seu tempo ouvindo aquela conversa confusa. Você sabe que há problemas sérios quando, nos primeiros 10 minutos, o espectador está no meio de uma reunião de algum senado, sem entender nada do que está sendo discutido.

À frente destas negociações políticas está uma rainha adolescente, Amidala (Natalie Portman, de O Profissional), que parece lutar para livrar o seu povo de alguma guerra, causada por algum tipo de acordo que, pelo que foi explicado, estaria relacionado à cobrança de uns impostos...

O que realmente importa é que Amidala será, no futuro, a mãe de Luke Skywalker e da Princesa Leia. Amidala recebe a proteção de dois Jedis, o experiente Qui-Gon Jinn (Liam Neeson, de A Lista de Schindler), e seu aprendiz Obi Wan Kenobi (Ewan McGregor, de Trainspotting, imitando bem a fala de Alec Guiness, que fez Obi Wan na primeira trilogia).

Num dos planetas que visitam, o árido e já conhecido Tatooine, encontram um garotinho chamado Anakin (Jake Lloyd, de Meu Herói de Brinquedo), filho de Shmi Skywalker (Pernilla August, de As Melhores Intenções), ambos escravos. Qui-Gon Jinn fica impressionado com o menino (que será no futuro o temido Darth Vader).

Anakin tem uma concentração anormal de midi-chlorians no sangue, microorganismos que indicam metabolismo superior, prova de que ele seria "o predestinado". Interessante observar que Hollywood mostra-se cristã pela segunda vez num arrasa-quarteirão, este ano, com esta história de "o predestinado", elemento também presente em Matrix (1999).

Tentar procurar traços do mal que tomará Anakin no futuro é tarefa inútil, pois o Anakin de Lloyd é o menino tipicamente americano, saudável e bonzinho apresentado por filmes hollywoodianos direcionados à família (americana).

Não esperem vê-lo com olhares estranhos ou esmagando formigas. Ele chega até mesmo a comentar com a mãe que "o maior problema do universo é que ninguém ajuda ninguém", texto hediondo falado pelo garoto como se tivesse acabado de sair de uma aula de religião.

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Jornal do Commercio
Recife - 23.06.99
Quarta-feira