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CINEMA II
Batalha final tem cara de comercial de videogame

Lucas parece ter trabalhado duro para extrair todo e qualquer sinal de humanidade ou carisma do seus personagens. Aqui, o elemento humano tem a mesma presença de um sabre de luz, ou de uma nave. Gente como Samuel L. Jackson (Pulp Fiction) ou Terence Stamp (O Colecionador) apenas compõem os cenários.

O problema já começa com centenas de andróides quase inertes que despertam desdém no espectador. Frágeis e lentos, parecem gráficos preguiçosos pré-FormiguinhaZ, bem diferente das presenças imponentes das tropas imperiais, na primeira trilogia. Os andróides mais interessantes (uns que rolam como pneus) têm participação limitada. Também decepcionante é a porcentagem de tela de R2D2 e C3P0, apresentados um tanto gratuitamente, talvez porque eles simplesmente não poderiam ficar de fora deste filme por serem tão populares.

Neeson e McGregor, as duas forças humanas da trama, apresentam problemas ainda mais sérios. Os dois nunca estiveram tão duros, pois deve ser difícil contracenar com cenários digitais que não estavam lá na hora da filmagem, e personagens digitais que também não existiam. Numa da cenas mais emblemáticas, McGregor olha para o personagem digital Jar Jar Binks (todo feito em computador), mas parece estar fitando o teto, bem longe.

Jar Jar Binks é uma tentativa de trazer descontração ao filme, mas a participação deste anfíbio linguarudo tem, em termos gerais, a graça de uma enxaqueca, lembrando o mesmo "alívio humorístico" planejado por Lucas com os já citados Ewoks, em O Retorno do Jedi. JJB é "desajeitado", prende sua pata em lugares incômodos, é eletrocutado, fala besteira e atrapalha a ação dos dois Jedis, que, pela lógica, dividiriam esta pobre criatura em quatro partes com seus sabres de luz. Ao invés disso, mantém o mala junto deles.

Também mal construído é o vilão da história, Darth Maul, cuja composição resume-se a, basicamente, vestir-se de preto e ter uma cara feia, pontuada por chifres. Se Maul falasse algo de interessante e fosse um personagem real, suas habilidades com um sabre de luz de dois lados seriam mais intrigantes. Isso significa que o confronto final entre ele, Qui-Jon Jinn e Obi Wan Kenobi teria o impacto que, no filme, é apenas áudio-visual (excelente som dos lasers roçando!).

O filme segue confuso sua viagem com a trupe Jinn, Obi Wan, Binks, Amidala e comitiva, levando com eles o jovem Anakin, que conquista sua liberdade numa corrida de pod racers, espécie de biga romana puxada por dois motores potentes. Esta é a única seqüência impactante do filme, e provável motivo para que crianças, e até mesmo adultos, queiram voltar ao cinema para rever o filme. Apresentada como citação explícita à corrida de Ben Hur (1959), esta seqüência é um tour de force de montagem (Oscar), efeitos especiais (Oscar) e um fantástico trabalho de som (Oscar), mais uma vez criado pelo super talentoso Ben Burtt, responsável pelos sons da primeira trilogia e dos três Indiana Jones.

Diferente de Ben Hur, no entanto, ou até mesmo da eletrizante batalha final de Guerra Nas Estrelas (1977), esta seqüência é desprovida de significado dentro da trama, seja pessoal ou político, e tem a naturalidade e funcionalidade de um ótimo comercial de videogame da Nintendo que, aliás, tem sido exibido constantemente na TV. Está mais próxima da desnecessária (porém memorável) corrida de speed-bikes na floresta, em O Retorno do Jedi.

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Jornal do Commercio
Recife - 23.06.99
Quarta-feira