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A nossa herança mais rica

por LEONARDO SPINELLI

Desde o início do mês, o forró toma conta dos finais de semana do Recife. E a partir de hoje, a cidade começa, definitivamente, a respirar o bom e velho clima de São João, pois praticamente todos os eventos têm alguma relação com a data. Justamente nestes momentos é importante procurar saber mais um pouco sobre a tradição do ciclo junino para não ficar a ver navios nem se perder, nesta, que, ao lado do carnaval, é a manifestação popular mais importante do Nordeste.

Neste aspecto, um livro bastante esclarecedor sobre o assunto é Ciclo Junino, coordenado e editado pela professora e folclorista Leny de Amorim Silva e lançado pela Prefeitura do Recife no ano de 1992. Infelizmente não há mais cópias disponíveis para compra, mas a prefeitura tomou o cuidado, na época, de distribuir a obra em todas as bibliotecas e escolas da cidade, deixando-a um pouco mais acessível, seis anos depois de seu lançamento.

O destaque do livro é o cuidado que a professora Leny de Amorim teve ao reunir, em uma só edição, vários escritores, estudiosos e folcloristas falando sobre o tema. O resultado é didático e bastante esclarecedor.

No livro ficamos sabendo, pelas referências aos trabalhos de Câmara Cascudo (cujo Dicionário do Folclore Brasileiro está sendo relançado pela Ediouro a R$ 29,00), que as festas juninas são manifestações de natureza agrária européia anterior ao cristianismo, ligadas à fertilidade da terra e do homem. O fogo representava o elemento purificador da terra e afugentador do frio. A Igreja Católica só fez situar a festa de São João para absorver os cultos agrários pagãos, na intensão de antecipar o anúncio do Advento (papel de João Batista), como precursor de Cristo.

As festas juninas continuaram diretamente ligadas ao início da colheita do milho, no Nordeste, diferentemente do centro-sul do país, que separou os festejos dos ritos agrícolas. Daí, se explica a importância da culinária da época baseada no milho, cereal conhecido na Europa pelas mãos dos índios do novo continente. Quem nunca saboreou a canjica e a pamonha, ou se empanturrou de bolos dos mais variados tipos? A característica lúdica também atraiu a atenção dos índios e negros escravizados, que também contribuíram para a música, dança e culinária do período junino.

ACERTANDO O PÉ - No aspecto da dança, a quadrilha é a manifestação mais marcante da data. Seu berço também é o velho continente. Só que ao invés de uma origem agrária, da prole, a quadrilha têm um passado, digamos, mais nobre. É inspirada em várias danças aristocráticas européias, muito em moda nos séculos 18 e 19, segundo estudos de Lula Gonzaga. Mas foi a França que popularizou este tipo de baile.

Aqui no Brasil chegou aos palácios no século 19, e logo tomaram as ruas. A origem francesa deu oportunidade aos brasileiros adaptarem alguns termos como en avant, tout; en arrière ou o grande chène, que aqui ficaram conhecidos como anavantur, anarriê e garranché. Hoje a quadrilha está associada ao casamento matuto, que nada mais é do que uma representação, onde os jovens debocham com muita liberdade e malícia da instituição do casamento. Santo Antônio também inspira os sonhos das donzelas apaixonadas, que através de suas adivinhações e simpatias procuram respostas sobre os futuros namorados e maridos. Dança, culinária, religião, superstição... Que outra manifestação popular é mais completa que o ciclo junino?

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Jornal do Commercio
Recife - 18.06.99
Sexta-feira