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ARTIGO

Caldo de galinha e Sudene

por GUSTAVO KRAUSE*

A voz corrente que "cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém". Proponho incluir elegância e, conseqüentemente, consagrar a fórmula "elegância, cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém" como receita do senso comum ao comportamento das pessoas diante das mais embaraçosas situações.

A propósito, esta é a lição que Aluísio Sotero vem dando no episódio de sua saída da Superintendência da Sudene.

Tenha-se por elegância um conceito mais abrangente do que a distinção do porte, a leveza das maneiras, a adequação da palavra e do gesto e incluam-se a solidez do caráter e a grandeza do espírito. Elegância está na casca e no miolo; na forma e no conteúdo das ações humanas.

Pois bem, convocado para a missão política de dirigir a Sudene, Sotero topou a parada assumindo riscos (a vida pública, mais do que nunca, coloca em risco reputações longamente construídas) e ônus familiar, financeiro e emocional.

No começo, demonstrou incomum habilidade conceitual ao distinguir uma antiga Sudene aferrada ao paradigma do capitalismo de Estado e uma Sudene revigorada em seus fundamentos capaz de atuar noutra referência que é o capitalismo de mercado.

Paralelamente, foi incansável na busca de alianças políticas, dando ênfase ao papel dos governadores e à utilidade da Autarquia em relação a respectivas gestões.

Colocou na rua uma nova agenda. Deu outra dimensão à questão regional, ou seja, mudou uma conversa enervante e recorrente que não ia além das cifras do Finor e do assistencialismo aos efeitos da seca.

Não que estas questões não sejam importantes. Todavia elevou o tom do debate ao propor que a Sudene atuasse como uma Agência de Desenvolvimento (o que vinha praticando) e que a lógica do Finor respondesse ao desafio dos projetos estruturadores, projetos, que, por definição, mudam a base e o rumo da economia regional como é o caso da refinaria para o Ceará, as termelétricas e a Transnordestina para Pernambuco, as hidrelétricas de Itapebi para a Bahia e Irupé para Minas, a recuperação da Alcanor para Rio Grande do Norte e assim por diante.

Conferiu uma lógica seletiva ao Finor ao enfatizar setores dinâmicos como agricultura irrigada, grãos no cerrado e pesca. E adotou práticas interessantes como os comitês de aprovação da carta-consulta, criando um espaço para que a burocracia entendesse que mercado se faz com pessoas e empresas se constroem com visão. Estes comitês proporcionam o conhecimento e aprendizado recíproco entre burocracia e empresariado.

De outra parte, a exigência da publicação de um balanço social pelas empresas incentivadas é uma iniciativa indutora de uma relação saudável entre o capital, o trabalhador e o meio ambiente.

Este trabalho foi interrompido - compreende-se - por "circunstâncias políticas".

As "circunstâncias políticas", em tese, prevalecem sobre a lógica programática. São arranjos que servem para dar "governabilidade" ao país atendendo aos "reclamos da base parlamentar".

Sotero é do ramo e entendeu o processo. E aí entra o dado da elegância. Contribuiu ao entrar, emprestando reconhecida experiência e visão inovadora na formulação de um papel a ser desempenhado por uma Sudene refundada; contribuiu durante curta e intensa permanência em que semeou idéias e introduziu práticas que deram dimensão política e estratégica à Sudene; contribuiu ao sair, tratando com elevação, nem sempre habitual nas lutas por espaço de poder, os fatos políticos que determinaram sua saída, inclusive, tocando, com profissionalismo a gestão da autarquia até a posse do substituto.

A elegância de Sotero, quem sabe, pode ajudar o futuro da Sudene como ajudaram a gestão criteriosa e oxigenação funcional patrocinadas pelo General Nilton, a correção e o equilíbrio político de Sérgio Moreira, em tempos de turbulência eleitoral e de flagelos da seca, na medida em que se compreenda que, o melhor caminho é liberar sua Excelência o Senhor Ministro da integração Regional das pressões partidárias e regionais, deixando a seu exclusivo critério a escolha do Superintendente, do Superintendente-Adjunto e do Diretor da Área de Incentivos.

* Gustavo Krause foi ministro da Fazenda e de Recursos Hídricos


Jornal do Commercio
Recife - 23.09.99
Quinta-feira

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