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POR UM AMOR NO RECIFE
O diálogo conflitante de Bel e Márcio

por JANAÍNA LIMA

A peça Para um Amor no Recife - em cartaz no Apolo, há três semanas - pode ser considerada um dos espetáculos mais atuais da cena pernambucana nos últimos tempos. O espetáculo, dirigido pelo experiente Carlos Bartolomeu, e que foi anunciado como a primeira tentativa de se colocar o movimento mangue num palco de teatro, sobressae-se exatamente por não cumprir esta profecia. Muito mais que os figurinos idealizados por Marcelo Taubert e Andréa Monteiro (perfeitos para a ocasião) e a trilha sonora criada pelo DJ Dolores, Hélder Aragão, Para um Amor no Recife exalta a palavra, o diálogo conflituoso de Bel e Márcio.

Sem mistérios, toda a ação se passa no mesmo local, num calçadão na Av. Boa Viagem, no Pina, na véspera de Natal. No palco, três atores apenas, Elaine Kauffman (A Floresta Encantada, Bob e Bobete), Gustavo Falcão (Castro Alves, Romeu e Julieta) e Márcio Carneiro (Aurora da Minha Vida, Perdoa-me por me Traíres), intepretam o jovem casal e sua consciência (que em diferentes momentos questiona ambos personagens).

Apesar de viverem se degladiando, pela impossibilidade de concretizarem o seu amor, Bel e Márcio desfrutam de uma cumplicidade especial que lhes permite dividir o mesmo `Grilo Falante' (invisível), que funciona como contraponto, ora respondendo por um dos personagens, ora questionando.

E questionamentos são o que não faltam ao texto de Moisés Neto. O autor, que traz no currículo alguns prêmios pelas peças Cleópatra, Um Certo Delmiro Gouveia e Auto de Casa Amarela, conta a sua piada amarga ("Essa peça é uma piada sobre mim", disse em entrevista) retratando a dura realidade de um soropositivo. A ousadia do texto é não apenas por discutir o drama da Aids, mas os desdobramentos secundários que o tema implica: a vida marginal, o envolvimento com drogas, a vida dos garotos de programa, etc. Márcio é um garoto de programa, que embora apaixonado por Bel, busca satisfazer o desejo sexual com outros homens.

Sem cair nos detalhes médicos, Moisés disseca o emocional de Márcio e Bel, suas frustrações, dúvidas e o medo da morte. Aquela que chega para acabar com a festa da vida, por volta da meia-noite, quando o agito está apenas começando. Mas a vida de Márcio já está acabando, embora ele ainda não sinta os efeitos da sua sina cruel.

O final previsível, com a morte de Márcio, é substituído pela morte de Bel. No mesmo banco na beira da praia onde o casal troca suas juras de amor e dor, a moça é baleada acidentalmente por seu amado. Mais trágico impossível.

Serviço

Para um Amor no Recife, sextas e sábados, 21h, e domingos, 20h, no Teatro Apolo. Ingressos: R4 5,00 e R$ 3,00

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Jornal do Commercio
Recife - 23.09.99
Quinta-feira