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COMPORTAMENTO A difícil arte de ser amante por FABIANA MORAES Ele é casado/ e eu sou a outra na vida dele/que vive qual uma brasa/por faltar-lhe tudo em casa/ele é casado/e eu sou a outra/que o mundo difama/que a vida ingrata maltrata/e sem dó cobre de lama. Quando interpretou a música A Outra, em 1953, a cantora Carmem Costa, apaixonada por um homem comprometido, vivia uma realidade bastante diversa daquela vivida pelas amantes atuais: a cobrança e o preconceito social chegavam a níveis atualmente inimagináveis, onde era permitido que a mulher fosse maltratada e exposta publicamente numa forma de punição pelo seu grande "pecado". Hoje, com a criação do Dia dos Amantes, que será comemorado na quarta-feira (22) a situação é claramente diversa. Apesar de todo o mito e mesmo da aura profana que ainda encobre quem se dispõe a ser par de um homem (ou mulher) comprometido, já se fala com mais abertura das relações onde uma terceira pessoa começa a fazer parte do enredo amoroso. As amantes, sem dúvida, vêm se afastanto da imagem de mulher dependente, burra ou ingênua que inevitavelmente eram associadas à elas. A funcionária pública Mariana Melo é um exemplo do novo perfil dessa mulher: apesar de ter mantido durante 17 anos uma relação com um homem casado, ela conta que nunca chegou a exigir nada dele, nem mesmo a presença em datas como aniversário, Natal ou Ano Novo. "Eu o conheci casado, sabia que que teria que me moldar de acordo com a vida dele", diz Mariana, lembrando que partia dela a recomendação de que ele não deixasse a esposa ou saísse de casa. Nos 17 anos em que foi amante do contador Pedro Amaral, a funcionária pública não quis se relacionar com nenhuma outra pessoa, apesar de saber que, além dela, existiam mais duas mulheres na vida do seu namorado. Cansada da situação, a esposa de Pedro pediu a separação, e ele, naturalmente, foi morar com Mariana. "Sinceramente, minha vida não mudou muito depois que ele veio para minha casa. Já nos encontrávamos todos os dias", diz. Para a psicóloga Andréa Galindo, que desenvolve uma pesquisa sobre infidelidade, a inserção no mercado de trabalho, que deu maior independência financeira à mulher, fez com que a imagem da amante fosse mudando ao longo dos últimos 30 anos. "Ela não necessita financeiramente do homem, e ainda o tem apenas nos bons momentos. As contas e problemas ela deixa que ele trate em casa, com a mulher" diz. Apesar de mais resolvida, essa mulher, a partir do momento em que aceita ter um relacionamento duradouro com uma pessoa casada, como fez Mariana, pode estar sofrendo de baixa-estima, enquanto seu par pode nutrir um excessivo senso de poder, lembra Andréa. A professora Laura Beltrão diz que uma das grandes vantagens em ter um caso com uma pessoa já comprometida são justamente os "bons momentos" citados pela psicóloga Andréa Galindo. "É muito romântico. Como o tempo que um tem para o outro é geralmente curto, só existe espaço para namorar", conta Laura, que se relacionou durante quase dois anos com um homem casado, classificado como um dos grande amores de sua vida. "Eu nunca imaginei que fosse ter um romance com uma pessoa casada, mas me apaixonei. De outra forma, não entraria nessa história. Sou muito conservadora", continua a professora. APOIO DA VIZINHA - Segundo o professor Parry Scott, antropólogo e chefe do Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) o papel social exercido pela "outra" é bastante importante, na medida ela reforça a situação de prestígio do homem, ou mesmo a partir do momento em ela que cria condições para a manutenção da família, através de seu trabalho. "Mas acho que é difícil quantificar se existe ou não maior aceitação social ao papel da amante. Pode depender muito da classe social onde estas pessoas estão inseridas", diz Scott, que trabalha geralmente com camadas mais populares. "Nestes locais, a vizinhança sabe que o homem tem duas mulheres. Elas recebem o apoio daqueles que convivem mais de perto com suas realidades. Na classe média, o patrulhamento é bem maior", crê. A fonoaudióloga Iara Calado, 28 anos, nunca se acostumou com os olhares desconfiados que recebia quando manteve um envolvimento com um homem casado. "De repente, senti que as pessoas me viam de modo diferente, como se eu fosse uma espécie de bruxa, um mal social". A relação, que começou com inocentes flertes, foi se tornando séria a ponto de o casal (o namorado de Iara e sua esposa) cogitar uma separação. Nesse momento, Iara começou a se afastar. "Foi muito ruim quando ela soube, até porque eu não sabia se queria levar o namoro a frente. Acho que fui inconseqüente, mas ao mesmo tempo não podia deixar aquela história, que era tão boa, ficar para trás. Eu precisava vivê-la", diz. (Os nomes das personagens são fictícios) |
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