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LITERATURA Anne Rice vampiriza a si mesma por SCHNEIDER CARPEGGIANI Uma estória a ser contada. De um lado, um vampiro com o tédio que parece ser inerente aos imortais. Do outro, um repórter com a curiosidade característica dos mortais. Esse foi o enredo básico de Entrevista com o Vampiro, livro cult, que revelou ao mundo a mais perfeita e famosa cronista dos bebedores de sangue deste final de século, a escritora americana Anne Rice. Depois de retratar o universo de bruxas, múmias e de levar os seus vampiros a se enredarem em façanhas do tipo beber o sangue de Cristo e explodir como estrelas de rock na MTV, Anne Rice volta à idéia que primeiramente lhe deu fama: um vampiro relatando a sua vida, ou melhor dizendo sua não-vida. Esse é o tema de Pandora, seu mais recente livro lançado no Brasil, pela Editora Rocco. No lugar um mortal procurando conhecer as vantagens e desvantagens da imortalidade, Pandora mostra uma vampira antiga, homônima ao título do livro, contando a outro vampiro, o novato e ainda inexperiente no "dom da eternidade", David Talbot, a sua odisséia. David Talbot, para quem conhece o universo de Anne Rice, foi o humano, membro da liga de detetives paranormais, a Talamasca, que trocou de corpo e foi transformado em vampiro na quarta edição da série que conta as aventuras do vampiro Lestat, A História do Ladrão de Corpos. Mesmo para os leitores que não sabem coisa alguma das crônicas vampirescas, a autora, como qualquer boa escritora de best-seller, não deixa de fazer uma devida contextualização das personagens, para não perder, assim, aqueles que não foram devidamente introduzidos na sua obra. Além de deixar, logicamente, um grau de curiosidade latente para que esses novatos recorram às livrarias em busca dos seus volumes anteriores sobre vampiros. O livro começa com o encontro entre Pandora e David, em um café, em Paris, e mostra, logo de cara, o jogo de sedução que o vampiro mais novo estabelece para que ela escreva em um caderno a sua vida mortal, sua transformação e a maneira como conseguiu vencer o tédio de viver por mais de dois mil anos. Relutante a princípio, Pandora começa a relatar a sua trajetória, que começa na Roma Antiga, durante o reinado de César Augusto. Filha de uma família tradicional romana e discípula da deusa egípcia Ísis, Pandora é obrigada a fugir de Roma para não ser assassinada pelos conspiradores que mataram seus parentes e pretendem dominar a cidade. O seu refúgio é o porto de Antioquia, na Síria, onde reencontra Marius, um amigo da família, que havia se apaixonado por Pandora, quando essa tinha 10 anos de idade, e que, já devidamente vampirizado, concede à Pandora o "dom eterno". Marius, para os já introduzidos no universo da autora, é um dos vampiros mais antigos e alvo de fascínio de Lestat. A melhor coisa de Pandora não está necessariamente nos caninos afiados das suas personagens, mas no fato de Anne Rice retratar o fascínio que os romanos tinham pela cultura egípcia, o berço primeiro das civilizações grega e, por conseqüência, romana. O ponto negativo se encontra na maneira simplista como a autora desenvolve o relacionamento entre Marius e Pandora, deixando de lado os questionamentos filosóficos, que são uma constante na sua obra e lançando mão em uma mal-alinhavada estória de amor. Mesmo sendo convidativo, Pandora não pode ser classificada como um dos trabalhos de Anne Rice. A autora deixa no ar uma sensação de estar batendo em uma mesma tecla. Apesar da utilização do artifício, que primeiramente a consagrou: um vampiro buscando contar o drama da imortalidade, não ser de todo mal. Nos Estados Unidos as crônicas vampirescas continuam: dessa vez a personagem principal é Armand, um vampiro adolescente, que foi interpretado, no cinema, por um trintão Antônio Banderas. Um detalhe pitoresco, é que as livrarias de Nova Orleans, onde mora Anne Rice, abriram à meia-noite, no dia do lançamento, para vender a primeira leva de livro aos fãs da escritora. FILOSOFIA VAMPIRESCA - Apesar de não ser o melhor volume sobre vampiros da autora americana, Pandora, ainda assim, consegue seduzir o leitor pelo drama épico de suas personagens. Quando lançou Entrevista com o Vampiro, no final dos anos 70, a escritora apresentou sua visão bem peculiar do universo dos vampiros. Enquanto o mais famoso de todos, o Conde Drácula, era um católico que se desligou de Deus, pelo fato da sua esposa ter morrido, enquanto ele participava de uma guerra, em nome da Igreja Católica; os vampiros de Anne Rice não têm qualquer ligação direta nem com o céu nem com o inferno. O próprio Lestat chega a afirmar, em um dos primeiros capítulos de Entrevista com o Vampiro, não saber nada sobre Deus e, muito menos, sobre o demônio. O fato do criador do Conde Drácula, o escritor Bram Stocker, ter utilizado uma ligação direta entre o Conde Drácula e as forças do mal, provavelmente decorre do fato do mito dos vampiros ter começado a se alastrar pela Europa, paralelamente ao período de caça às bruxas iniciado pela Igreja Católica, o que fez esses seres passarem muito tempo ligados unicamente a manifestações demoníaco. Anne Rice utiliza o artifício da vampirização para tratar de temas bem humanos como a solidão, o vazio e a falta de sentido e compreensão da vida. Em Pandora, há um trecho em que Lestat aconselha: "Leia ou veja todas as peças de Shakespeare e você ficará sabendo de tudo o que precisa saber sobre a raça humana". É, talvez, essa busca incessante por conhecimento que tenha feito a escritora reunir um legião tão grande de admiradores. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma convenção anual de fãs do vampiro Lestat. Até mesmo as razões que podem matar um vampiro são diferentes, em Anne Rice, daquelas que ficamos acostumados a ler e ver nos filmes sobre o Conde Drácula. Suas personagens não demonstram medo de cruz e estaca no peito. Somente o sol continua sendo a grande ameaça. O lado "humano" que Anne Rice coloca nas suas personagens é explicitado no seguinte diálogo entre Pandora e David: "O que temos de temer são as mesmas coisas que os humanos temem - o fato de haver outros de nossa espécie, com poderes e crenças variados, e de jamais sabermos com certeza onde eles são e o que fazem". |
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