LG_jc.gif (3670 bytes)

POLÍTICA CAMBIAL II
A paridade com o dólar afeta crédito interno

A opção que o governo fez, como se pode ver, de forma clara e indequívoca, foi absolutamente radical e dispensa a partir de agora qualquer preocupação "boba" e "anacrônica" com assuntos do tipo "soberania nacional". Em troca de quê? E com que possibilidade de sucesso em termos de desenvolvimento?

Como fica demonstrado, na forma como estão definidas e estabelecidas as novas regras do bom comportamento macroeconômico brasileiro, rolem-se ou não as dívidas, e volte ou não a boa vontade dos mercados, o país será empurrado de forma apenas mais ou menos rápida, mas inapelável, em direção a um sistema cambial que os economistas chamam de currency board.

Uma vez dentro desse sistema - que já está funcionando inconstitucionalmente -, o volume do crédito interno e, automaticamente, a variação das taxas de juros ficam condicionados pelo volume ou escassez dos recursos externos que entrarem no país.

Na verdade, este sistema constitui um simulacro do padrão ouro aplicado neste final de século apenas àqueles países sem condições de participar do sistema de taxas flutuantes que impera entre as potências econômicas. Este sistema só foi experimentado pelos Dominions ingleses e mantido com êxito relativo, neste século, em lugares que se converteram em praças financeiras internacionais, como Cingapura e Hong Kong (e está agora em experiência na Argentina).

O desenvolvimento dos países periféricos subordinados a este novo modelo fica totalmente dependente das flutuações internacionais dos capitais e completamente indefeso diante de suas crises financeiras periódicas.

Nesse sentido, no caso de uma nova crise, como as de 1997 ou de 1998, sua única resposta serão as renovadas desconstruções do seu sistema produtivo, a serem induzidas por recessões cada vez mais fortes, para que possam reduzir a produção e o emprego internos até o nível requerido pela manutenção do equilíbrio externo, dada a oferta de capitais do momento.

Não é necessário dizer que o funcionamento desse modelo de desenvolvimento requer o isolamento dos seus administradores com relação a qualquer tipo de demanda ou reivindicação interna, o que supõe a despolitização radical das relações econômicas, o enfraquecimento dos sindicatos, a fragilização dos partidos políticos e dos parlamentos e, finalmente, a redução ao mínimo indispensável da vida democrática.

Se o economista americano Barry Eichengreen tiver razão quando diz que "ou se limita a mobilidade dos capitais ou se limita a democracia", o atual governo brasileiro já fez a sua opção: e aqui, como no caso da produção e do emprego, a governabilidade democrática e federativa é que deverá ir sendo reduzida e se adequando às exigências impostas pelo equilíbrio das contas externas ou pela disponibilidade de capitais do momento.

Mas, mesmo assim, dentro desta camisa-de-força, o Brasil está condenado, na melhor das hipóteses, a ter ciclos muito curtos de baixo crescimento e apenas durante os períodos de disponibilidade abundante e barata de capitais e créditos internacionais.

Querer manter esse modelo e alcançar a um só tempo altas taxas de crescimento é o mesmo que o círculo quadrado a que se propôs José Bonifácio ao querer construir uma nação independente e liberal aliada com os ingleses e os senhores de escravos. Deu no que deu.

_____________________-___________________


Jornal do Commercio
Recife - 24.01. 99