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IMPRENSA DE PAPEL
Mídia endossa violência institucional

por WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS

A perspectiva é de substancial recessão econômica, em 1999, além de escalada nos índices de desemprego e intensificação de todas as catástrofes que vêm ocorrendo há dois anos, indiferentes aos desmentidos oficiais, endossados pela mídia nacional.

Não obstante, ao longo da madrugada do dia 13 e todo o dia e a noite de 14 de janeiro (quarta e quinta-feira), organizou-se o mais inacreditável desfile de imposturas nas principais emissoras de televisão, sucedendo-se contorcionista após contorcionista, a demonstrar a racionalidade e impecável técnica do que ocorrera com a política cambial nas precedentes 48 horas - que importam as anteriores declarações em contrário de porta-vozes, altos funcionários, ministros e até mesmo do presidente da República? Quem se dá conta de que um funcionário subalterno, de alto escalão, mas subalterno, interrompeu duas vezes o descanso do senhor presidente, durante a semana, e convocou-o ao Palácio? O presidente foi.

Achando pouco, os participantes do desfile de economistas foram unânimes, como sempre são na antevéspera de serem contrariados pelos fatos, em apresentar o inteligentíssimo diagnóstico de que a origem da turbulência mundial (que, de fato, resumiu-se a mudanças de posição entre especuladores) encontra-se na sensata e tempestiva declaração do governador Itamar Franco de que o Estado de Minas Gerais não conseguirá honrar os termos da negociação de suas dívidas.

Não importa que isso seja verdade em relação ao Estado de Minas e à maioria dos demais Estados, agora, e também em relação aos poucos adimplentes, em breve. Segundo os magos televisivos, se ninguém mencionasse o assunto não haveria o maior problema.

Pior que o diagnóstico, o prognóstico. Tudo ficará bem se o Congresso aprovar novo aumento de impostos, tendo por base os funcionários públicos, ativos e inativos. Isto feito, naturalmente, a Bolsas de Frankfurt e a Bolsa de Tóquio se acalmarão. Serão, por acaso, insanos, os nossos economistas? - Não, são ávidos de riquezas, poder e inimigos jurados de democracia. Há um problema genético na formação econômica que a inclina, siderada, e ao contrário dos juristas, ao autoritarismo. Basta acompanhar o desprezo com que se referem às instituições representativas e se perceberá o fenômeno.

Para a maioria de nossos atuais ou virtuais membros de qualquer equipe econômica, mercados e Banco Central independente são variáveis suficientes para explicar a saúde econômica e política dos países de Primeiro Mundo. Claro, os períodos de desastre que vez por outra enfrentam são sempre conseqüência da intromissão da política nos mercados. Não se dão conta, ao reverso, da brutal interferência na vida política do país que patrocinaram em nome de desvairado fundamentalismo.

O governo obteve espetacular sucesso em sua trajetória de encurralar o país. Do Congresso, hoje, obterá tudo. Se não for obstado pelos governadores, continuará em sua marcha para a completa centralização econômica, além de reduzir drasticamente a concorrência política mediante reformas partidárias e eleitorais, em tramitação, com o apoio suicida da classe política.

Fique claro, essa crise longamente induzida pelo governo tem por objetivo proceder a uma violência institucional, obedecendo formalisticamente aos requisitos da lei. Chamem do que quiserem, de paranóia, catastrofismo ou irresponsabilidade (está na moda), mas está em andamento um golpe de Estado não-Fujimoriano, que produzirá contudo efeitos similares, com a lamentável complacência da grande imprensa. Talvez desejem, imprensa e acadêmicos subservientes, outros 20 anos de silêncio.

* Wanderley Guilherme dos Santos é cientista político, professor do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) e autor de Décadas de Espanto e uma Apologia Democrática" (Rocco) e Ordem Burguesa e Liberalismo Político (Duas Cidades), entre outros.

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Jornal do Commercio
Recife - 24.01. 99