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MÍDIA
O eterno símbolo do poder

por FABIANA MORAES

A celeuma provocada pelo zíper aberto de Bill Clinton trouxe à tona uma realidade milenar que só agora começa a ser discutida: a importância do pênis no comando e nas decisões da sociedade. No Egito, na Grécia ou na Mesopotâmia, o falo já era levado em consideração nas escolhas mais importantes, desde o voto para eleger um líder até a época certa para semear os campos. Na religião, de Exu a Shiva, o pênis aparece em tamanhos gigantescos ou mesmo várias vezes num mesmo corpo. A ele, estão ligados temas como prosperidade, força e, principalmente, poder. Atualmente, estes conceitos vêm sendo debatidos nos divãs psicanalíticos por homens e mulheres que ainda procuram entender o impacto do órgão nos seus comportamentos e relações. A pergunta: após milhões de anos e de inovações tecnológicas, o pênis ainda decide as leis e políticas sociais?

"Vivemos numa sociedade falocêntrica", atesta Ernesto Santos, médico carioca especialista em comportamento sexual. Segundo ele, o culto ao pênis, principalmente quando ereto, demonstra a agressividade e a violência com que a sociedade institui suas relações, principalmente as sexuais. "Para o homem, quanto maior e mais potente for o pênis, mais ele será admirado e amado", continua o piscanalista, que discorda da famosa teoria freudiana em que se fala da suposta inveja feminina pelo falo masculino. "Creio que a inveja está ligada não ao pênis, mas à questão do poder. Os homens ainda são melhores remunerados e ocupam a maioria dos altos escalões", continua.

A explicação de Santos esbarra justamente no chamado Mito do Phallus (que em latim significa fascínio). O Phallus é, antes de tudo, um objeto de desejo, que pode ou não ser masculino. Na verdade, até mesmo uma mulher pode ser fálica. "Para o sexo feminino, um filho pode representar o falo. Para um homem, um carro também pode ganhar essa característica. Ele é nada mais do que qualquer coisa que signifique poder ou domínio", explica o psicanalista José Carlos Escobar. O homem, de acordo com o especialista, não baseia sua força necessariamente sobre o pênis, e sim sobre sua simbologia. Escobar, no entanto, não acredita que a teoria freudiana sobre a inveja esteja defasada por conta dos avanços sociais, culturais ou tecnológicos. "Cem anos na evolução humana não significam muito. As mães continuam sendo mães e os pais continuam sendo pais", diz.

Outras teses de Freud, como a teoria da castração, por exemplo, também atribuem ao pênis uma função dominante na psique humana. Até cerca de seis anos, as crianças vivem a fase fálica. Nesse estágio, a curiosidade não está relacionada às diferenças dos órgão genitais, pois o menino atribui o pênis a ambos os sexos. Quando percebe a diferença entre seu órgão e o da menina, o garoto passa a sentir a famosa angústia da castração. "O menino não vê a vagina como um órgão sexual, justamente por ela ser externa. É inconcebível, para ele, que falte num ser humano aquela parte do corpo tão importante", explica Escobar.

A anatomopatologista Telma Campello, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diz que o homem ainda não conseguiu diferenciar o pênis das relações afetivas. E o pior: as mulheres, acreditando estar dando um passo na sua evolução, terminam masculinizando suas relações sexuais, desprovendo-as de afeto. "O homem deve explorar mais seu potencial erótico e nós mulheres não podemos continuar a crer que evoluir seja fazer sexo como eles", declara a especialista, que estuda a vulva há cerca de três anos.

O pênis está sendo objeto de uma análise inédita realizada pelo urologista pernambucano Amaury de Medeiros. Com base nos depoimentos dos seus pacientes, o médico está preparando o que está sendo chamado de Estudo Anatômico e Antropológico do Pênis, onde vai procurar traçar comparativos entre o tamanho do órgão sexual masculino e o biotipo de alguns homens consultados. "Decidi preparar a pesquisa após analisar as crendices populares, como a relação entre o tamanho do pé e o pênis", conta o especialista.

Para isso, Medeiros vai avaliar 200 pacientes (atualmente, ele conta com 120), que serão pesados e terão seus órgãos medidos, tanto no tamanho normal quanto no tamanho ereto. O estudo está sendo realizado paralelamente com homens com problemas de disfunção sexual para checar se a popular impotência é mais comum em algum biotipo. "Espero, com a pesquisa, concluir se realmente o fato do homem ser negro ou ter um nariz grande contribui para o tipo do seu pênis. Por enquanto, não posso adiantar nada", continua.

OS MUITOS NOMES - Outro projeto do urologista é o livro O Imaginário Peniano Popular, onde o especialista vai mostrar como os homens catalogam suas queixas sexuais. O projeto, ainda em confecção, vai revelar o lado mais curioso - e humano - dos problemas vividos principalmente pelos homens a partir dos 50 anos. Amaury de Medeiros vem dividindo os depoimentos em várias categorias: os automobilísticos, os poéticos, os esotéricos, os "impublicáveis" etc. "Alguns homens chegam no consultório e dizem que a máquina não pega, ou que a máquina está fraca, como se seus sexos fossem algo mecânico", conta.

Para ele, isso significa que, apesar de toda liberação sexual, o ser masculino ainda é muito centrado no próprio órgão reprodutor. "Acho que vai ser sempre assim, não há psicanalista ou filósofo que vá mudar essa realidade. Para se ter idéia, recebo pacientes que juram dar um tiro na cabeça se não curarem a impotência".

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Jornal do Commercio
Recife - 24.01.99