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MÍDIA II
Nus masculinos ainda chocam o público

Mergulhada no falocentrismo, a sociedade ainda se nega a assumir a existência do pênis. É comum, nas televisões e na mídia em geral, a aparição do nu feminino, seja em inocentes tardes de domingo ou em novelas e filmes veiculadas no horário nobre. O órgão sexual masculino, no entanto, é raramente visto nos meios de comunicação. Num ato sexual entre um homem e uma mulher, por exemplo, é normalmente mostrado o púbis, enquanto o pênis continua icógnito. Publicitários, diretores de televisão e especialistas em sexualidade explicam o fato: o falo ainda choca e incomoda o público comum, que já banalizou o corpo feminino e tornou este numa simples atração para ser apreciada nas revistas.

"Acredito que no momento em que alguém expor um homem nu na televisão, de maneira natural, todo mundo vai fazer a mesma coisa", diz o diretor de Programação da Rede Globo, José Dias Raposo, que não vê a aparição de um pênis como uma agressão televisiva. "Tanto um homem quanto uma mulher nua podem representar um atentado ao pudor, não existe diferença alguma. É preciso analisar apenas como esta nudez será mostrada". Já o diretor da TV Jornal, José Mário Austregésilo, diz que o nu feminino vende mais do que o masculino. "Naõ temos a cultura da nudez masculina", declara.

Para o diretor de criação da agência Gruponove, Giuliano Bianchi, o nu masculino pode ser raro na mídia por não ser esteticamente belo, ou mesmo porque o machismo fez com que o homem preservasse mais o seu corpo. "Acho normal que seja mostrado o nu frontal de um homem, desde que exista um objetivo". A anatomopatologista Telma Campelo vê a freqüente aparição de seios e púbis como uma "coisificação" do corpo feminino, que tornou-se mais um objeto do dito falocentrismo.

Outra teoria sobre a curiosa falta de presença do pênis é que os órgãos sexuais femininos, por serem internos, causariam maior curiosidade, numa evidente "aura" de mistério. Já o homem, por apresentar uma genitália externa, pouco teria a esconder, tornando assim sua nudez mais monótona. "Pouco se sabe sobre o orgasmo feminino, enquanto o gozo do homem é muito evidente, sabe-se que ele pode chegar ao orgasmo com a simples ereção e fricção do pênis", diz o piscanalista carioca Ernesto Santos.

Mas, se a mídia "tradicional" ainda se acanha com formas fálicas e afins, a Internet atua como um palco perfeito para quem deseja ver ou mesmo mostrar a nudez. Homens despidos são um dos maiores fetiches virtuais, sejam eles mostrados de forma artística ou vulgar. Sites como o Eros Art Nude Gallery mostram corpos masculinos em diversas posições, enquanto alguns endereços são dedicados apenas a exibicionistas que fazem questão de posar com os pênis ereto e em primeiríssimo plano. A Internet, no final, vem mostrando como a falta de bom gosto esbarra na liberdade de expressão. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 24.01.99