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TRADIÇÕES
Mitos fálicos envolvem magia e religião

por MÁRIO HÉLIO

Talvez sejam a morte e a ressurreição de Osíris, do Egito Antigo, o primeiro grande mito envolvendo o falo. Representações do deus podem ser datadas de 3000 a.C., ou até mesmo da pré-História. Era também o mais popular do panteão egípcio. O seu culto está evidentemente ligado aos ciclos de fertilidade, de teor agrícola, mas acrescenta-se a isso um elaborado grau de afetividade. Há sentimento e emoção na sua história. Como se fosse o drama inaugural do homem. O inevitável morrer e a gloriosa esperança de ressurgir.

Num lugar como o Egito, onde era de vital importância o ciclo das inundações do Nilo, Osíris surgia como símbolo da germinação das plantas e a reprodução dos humanos. É a alegria da colheita. Mas, antes, vem o sofrimento e o estranho assassínio pelo irmão Seth, que espalha os seus pedaços pela terra e mar, inclusive o falo (que é engolido por um peixe), até a sua recomposição pela sua irmã-esposa Ísis. Itifálico mesmo no Egito não era Osíris, era o deus Min, representado segurando talos de alface cujo suco era tido como afrodisíaco. Deriva também do Egito um costume hoje associado especialmente aos judeus: a circuncisão.

Osíris é associado a diversos deuses, como o babilônico Tamuz e o grego Dionísio. Em ambos o falo como símbolo da criação permanece. Dionísio (fecundado pela mortal Sêmele e nascido nas coxas de Zeus) foi o conquistador da Índia (onde o falo, sem conotação erótica, chama-se linga e está associado ao culto de Shiva). Dionísio é famoso pelo cortejo nupcial, itifálico inclusive, e foi o inspirador do teatro, especialmente da comédia (muitos atores usavam falos como emblemas).

A mais conhecida lenda envolvendo falo da Grécia é a castração de Urano (o Céu) pelo seu filho Cronos (o Tempo). A mutilação foi motivada pela mania do deus de devorar todos os seus filhos à medida que nasciam. Diferentemente da Grécia, o falo, na Índia, não era associado apenas à procriação. Era um instrumento de prazer. A cópula tinha sentido mágico e religioso. O falo chegava a ser reverenciado (o do guru podia ser beijado; entre os antigos hebreus era comum o gesto de tocar o falo de um homem, como o hoje tão comum cumprimento de apertar as mãos). Falos artificiais eram usados na masturbação. Falos de pedra nos templos serviam aos rituais de defloração de meninas e sacerdotisas.

O culto do falo é talvez mais antigo que a sua simbolização em mito. Começa mesmo como fetiche. Muitos falos de argila foram encontrados nas ruínas do templo de Isthar. Tal era a veneração pelo órgão sexual masculino que a mulher que machucasse os seus genitais poderia ter os olhos arrancados.

No mundo antigo, o falo era reverenciado como símbolo de reprodução, mas também como algo supersticioso, contra o mau-olhado. Na Grécia, era freqüente nas casas e nos portões que fossem postos falos esculpidos, às vezes como marcos, chamados de hermes (na China essas peças chamavam-se de kuei), e até falos portáteis, com ornamentos. Também parecem vir da Grécia os primeiros falos artificiais (forma primitiva de vibradores), chamados de olisboi ou baubon, tão encontráveis entre os objetos pessoais das mulheres como as jóias, os grampos, os cosméticos e demais produtos de beleza.

No plano mais simbólico dessas culturas primordiais, o falo foi considerado o sétimo membro do homem, de imediato associável ao sétimo dia da criação (idéia que aparece no Sephira Yerira), com conotações mais místicas que eróticas, pela sua função geradora, estruturadora, equilibradora e sustentadora.

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Jornal do Commercio
Recife - 24.01.99