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MITO
Novos heróis substituem Lenin em Cuba

por ANDREW CAWTHORNE
Agência Reuters

MONTE LENIN - No último bastião do comunismo no hemisfério ocidental - a Cuba de Fidel Castro - um busto com olhar paternal de Vladimir Lenin observa a capital Havana do topo de um morro na baía. Esculturas brancas de "trabalhadores" anônimos brilhando sob o claro sol caribenho estão de pé logo embaixo com braços erguidos em homenagem ao líder da Revolução Russa de outubro de 1917. Uma oliveira plantada como símbolo da paz no mesmo dia do funeral de Lenin, em 1924, projeta sua suave sombra sobre o monumento.

Mas os ônibus lotados de visitantes soviéticos que costumavam ir ao memorial foram substituídos por um movimento de turistas ocidentais e estudiosos da história cubana. E o rumor de vozes excitadas não vêm de peregrinos, e sim de crianças brincando nas proximidades.

Exatamente 75 anos após sua morte, no dia 21 de janeiro de 1924, Lenin ainda é altamente respeitado em Cuba como o pai do socialismo do século 20 e do poder dos trabalhadores, que ainda são princípios que guiam o Partido Comunista, que governa a ilha. Mas sua proeminência no altar revolucionário de Cuba retrocedeu muito desde o colapso da União Soviética, no começo desta década, que acabou desviando o foco da ilha de sua primeira inspiração e aliado super-poderoso.

Agora, conforme Cuba luta para continuar sozinha - talvez pela primeira vez em sua história - sua liderança comunista se voltou mais para seus heróis caseiros, particularmente José Marti, defensor da independência e escritor do século 19. "Hoje, ele (Lenin) ainda é mencionado e conhecido, mas com menos força do que nossa própria história nacional", disse a professora da escola secundária de Havana, Maricela Mendoza, de 27 anos. "Lenin e a história soviética eventualmente começaram a nos chatear e cansar...Acho que Marti superou Lenin em nossa sociedade. Espero que o mesmo não aconteça com ele no decorrer dos anos!".

"Nós, trabalhadores, respeitamos muito Lenin. Ele é muito importante para nós e somos gratos à Rússia e a tudo o que ela fez por nós", afirma Obdulio Carmona, de 68 anos, que cuida do Monte Lenin. "Mas depois de tudo, todos sabemos o que aconteceu aos soviéticos...e sempre terminamos nos voltando para nosso próprio povo, não é?", ele adicionou, olhando para os telhados de Havana, onde pode ser visto o vasto monumento a Marti, na Praça da Revolução.

O mais adorado dos heróis próprios de Cuba é claramente Marti, que Castro saúda como o "autor intelectual" do levante armado que levou à Revolução Cubana no dia primeiro de janeiro de 1959. Marti morreu no dia 19 de maio de 1895, montando um cavalo branco numa batalha contra a Espanha.

Os próximos na lista história de Cuba são os líderes "barbudos" do vitorioso exército rebelde de Castro: o legendário guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara, um argentino que adotou Cuba como seu lar, e Camilo Cienfuegos, que morreu misteriosamente logo após a revolução.

Outros chefes rebeldes que mais tarde perderam o prestígio com o "comandante" mal são mencionados agora. A onipresença de Guevara é sentida nos posters colocados na beira das estradas com sua imagem e em camisetas com a máxima de "Che": "Sempre em frente para a vitória!", chaveiros e outros souvenirs para turistas.

Por último, mas certamente não menos importante no simbolismo político cubano moderno, está a própria figura barbada de Castro - o inflamado e enciumado guardião do comunismo da ilha caribenha pelos últimos 40 anos. Apesar de ter aversão a bustos, estátuas ou outras homenagens físicas a sua pessoa, o ubíquo Castro consegue dominar a sociedade cubana, de seu comando diário da mídia administrada pelo estado até sua curiosa evocação por parte dos cubanos que tocam uma barba ou um ombro militar condecorado imaginários para não dizerem seu nome.

O declínio da proeminência de Lenin em Cuba coincide com o fim depois de 1989 da "relação especial" da União Soviética com a ilha, que fornecia proteção política global, um comércio de bilhões de dólares e laços de ajuda que mantinham a economia flutuando. Agora Castro relembra o abandono do comunismo dos russos com insatisfação, chamando-o de "um grande crime histórico" que é responsável pelo atual caos econômico naquele país.

A ênfase dos símbolos nacionais é a melhor e mais lógica carta de Cuba a ser jogada enquanto o país entra no século 21 sem nenhum grande patrocinador estrangeiro e procura autenticidade histórica para o governo revolucionário de 40 anos de idade.

Enquanto Lenin pode ter sido rebaixado, ele não sofreu um esquecimento total no estilo Orwellian do discurso político do país nem foi oficialmente desacreditado como aconteceu em outras partes do mundo que viraram as costas ao velho estilo de comunismo.

O documento central do quinto congresso do Partido Comunista Cubano em 1997, por exemplo, instituiu em um artigo de fé que: "O Partido...tem por sua ideologia os ensinamentos dos geniais tutores dos trabalhadores Marx, Engels e Lenin; a doutrina de Marti; e as idéia criativas e exemplo de Fidel". A constituição de Cuba paga tributo aos mesmos "guias" ideológicos e Castro ainda faz menções curtas e ocasionais a Lenin, como no discurso de outubro de 1997, quando chamou-o de "uma figura extraordinária que tem um lugar especial em nossos corações".

Com algumas exceções como o Monte Lenin no subúrbio de Regla, em Havana, Cuba evitou erguer monumentos a líderes soviéticos na ilha, ou dar nome a ruas em homenagem a eles. Oficialmente, pelo menos, Havana não acredita no culto de personalidade, apesar dos críticos de Castro duvidarem disso. Mas a melhor escola de Havana e o maior parque ainda têm o seu nome e na província de Holguin, no leste do país, há um conhecido Hospital Lenin.

Os princípios revolucionários russos ainda são ensinados nas escolas e universidades, mas têm menos espaço no currículo do que nos dias das relações Cubanas-Soviéticas. "Fico contente que o peso Marxista-Leninista que recebemos é muito menor agora", disse Adolfo Carbonel, um estudante de economia de 21 anos da Universidade de Havana. "Antes, havia muita ficção e muito do que nos era ensinado parecia frio e distante".

Os cubanos sabem que Lenin era um grande homem que caiu devido a seus "erros humanos" e a "traições", disse o estudante de comunicações Enrique Molina, de 23 anos. "Ele tem um papel menor agora nas propagandas oficiais, que antes dedicavam dias inteiros para comemorar tudo ligado ao marxismo e especialmente a Lenin. As idéias de Lenin são relevantes e ocupam um lugar na história, também em Cuba".

Os moradores de Regla têm orgulho de suas ligações com o líder soviético. A oliveira plantada no dia 27 de janeiro de 1924 foi a primeira homenagem formal prestada a Lenin fora de seu país e se tornou um campo de batalha entre os então emergentes movimentos dos trabalhadores de Cuba e os elementos de direita que queriam cortar a árvore. "O dia em que enterraram Lenin a vida parou em Regla", disse o historiador local Pedro Cosme Banos. "Ele é um dos grandes homens da história, mas não teve chance de colocar suas idéias em prática".

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Jornal do Commercio
Recife - 24.01.99