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ARTIGO

O Príncipe Jordão

por ARTHUR CARVALHO É JORNALISTA

Conheci Jordão Emerenciano ainda morando na Cardeal Arcoverde, esquina com a Gervásio Fioravante, em 52. Naquele tempo o bairro das Graças era muito mais agradável, com residências de jardins bem cuidados e sítios arborizados, onde cantava o sabiá.

Um metro e noventa, cento e tantos quilos, eciano de primeira, acadêmico, culto, afável, carismático, boêmio, exímio conversador, anfitrião e gastrônomo famoso, Jordão era estimadíssimo no Recife. Os jantares e saraus literários de sua casa, de excelente biblioteca, no Rosarinho, no pé da ponte da Avenida Norte que ele denominou "ponte do jacaré", marcaram época nesta província, com a presença constante dos inseparáveis Mauro Mota, Paulo do Couto Malta e Marcel Morin, nosso cônsul da França, o popular Marcelo Amorim. Alex que o diga. Alex bem que podia escrever um livro sobre a sociedade recifense de 50 a 90. Ele tem muito o que contar.

Pintar o Jordão intelectual e advogado seria tarefa longa - seus contemporâneos sabem disso. Prefiro recordar alguns lances de sua interessante figura humana. Como aquele em que meu "faixa" de farra, o treloso José Maria Lubambo, ainda imberbe, precisou de seus serviços profissionais, atormentado pelo remorso e ressaca moral, pensando ter cometido falta grave, e Jordão, além de resolver a bronca com um simples telefonema, para a chamada autoridade constituída, em plena madrugada, acalmou o angustiado Lubambo: "Bobagem: errar é humano". A frase de efeito não é original, mas nos reconfortou, "comparsas" de Lubambo, que, solidários na dor, o acompanhamos à mansão do Jordão. E nunca mais a esqueci, quarenta e tantos anos depois.

Consta do folclore da cidade fantástico episódio envolvendo Jordão, o poeta Tomás Seixas e o lendário psiquiatra Ladislau Porto. Em janeiro de 62, Tomás e Ladislau almoçavam no Leite, já no quinto uísque, quando avistaram mesa enorme e engalanada, onde o Lions homenageava o então Governador do Estado, Cid Sampaio, sentado numa das cabeceiras, tendo Jordão, chefe da Casa Civil, ao lado direito.

Tomás levanta, vai lá e pede a palavra, pois desejava saudaros ilustres comensais, em nome da inteligência pernambucana". Conhecendo Tomás de outros carnavais, o orador do Lions negou o pedido. Mesmo porque, egresso de noitada na zona, Tomás ostentava barba grande, cabelos assanhados, terno preto amarrotado, olhos esbugalhados. Mas insistia em falar. Jordão, democrata convicto, resolveu conceder a palavra "ao meu vizinho e fidalgo escritor Tomás Seixas", que começou seu discurso assim: "Excelentíssimo Senhor Governador Cid Sampaio, excelentíssimo chefe da Casa Civil, bacharel Jordão Emerenciano, cujas mangas rosas de seu quintal dão pro meu. Sendo eu nacionalista empedernido, permitam-me, em preliminar, sugerir e propor aos notáveis membros do Lions, aqui presentes, que modifiquem o nome de Lions para onça. Fica mais leve, mais tropical, mais condizente com nossas florestas!" Sob constrangimento geral, Jordão foi obrigado a cassar a palavra de Tomás que, conduzido por dois garçons, retirou-se do recinto, protestando inconformado.

O eclético Jordão Emerenciano, bom de pena, garfo e copo, casou duas vezes e deixou nove filhos, entre eles Manuel e Adolfo, meus companheiros de pelada da Rua Jacobina. Vivo fosse completaria 80 primaveras no dia 14 de fevereiro passado. Muito justas as homenagens a ele prestadas pelo Arquivo Público Estadual e Gabinete Português de Leitura.

*Arthur Carvalho é jornalista


Jornal do Commercio
Recife - 24.03.99
Quarta-feira

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