![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
As cenas que ficam Desde o primeiro momento, quando Central do Brasil e Fernanda Montenegro foram indicados para o Oscar, o bom senso parece ter se imposto sobre as emoções nacionais. Por toda parte o que se via era a expressão "vamos torcer" sobre o esperado "já ganhou" e foi bom que assim tenha sido para que um belo filme não viesse a se transformar em mais um instrumento de frustração nacional. Claro que milhões de brasileiros madrugaram no domingo esperando a premiação do melhor filme estrangeiro e da melhor atriz, principalmente, porque nós estávamos presentes. Um prêmio antecipado, quando da indústria cinematográfica guardamos apenas a memória de uma Atlântida, de uma Vera Cruz, e de raros episódios em que fomos capazes de ser vistos e ouvidos lá fora. "Considerando que nosso maior prêmio foi a indicação, resta saber o que ficou dessa pequena temporada de sonhos, embalados pela mais formidável máquina de sucesso e dinheiro do cinema em todo mundo. Evidente que ficou muito para o cinema nacional, de que o excelente diretor Walter Salles e a extraordinária Fernanda Montenegro são apenas dois agentes. A idéia "cinema nacional" é mais que Central do Brasil, como foi em relação a Cangaceiro, a Pagador de Promessas ou à deliciosa época das chanchadas na década de 50. Essa é uma idéia que sobreviveu a um dos períodos mais difíceis da história do nosso cinema, no início da década de 90, e chega ao final da década renovada, reconhecida internacionalmente e com ares de que vai decolar. Esse o maior prêmio que nos concede Central do Brasil. Porque permite reacender a capacidade criativa de nosso povo e reabre uma janela cultural do Nordeste, apontando para potencialidade que já rendeu toneladas de planos. Na década de 70, em especial, dava-se Pernambuco como um futuro pólo cinematográfico, o futuro chegou, não se fala mais no assunto, mas ainda é tempo. Sempre é tempo quando há vontade e determinação. Imagine-se, hoje, uma indústria de cinema em Pernambuco com 20 e mais anos de atividades. Que bem estaria fazendo à economia e, sobretudo, à vida cultural e artística de nossa terra. Como estaria contribuindo para o mercado de trabalho, pelo extraordinário efeito ramificador dessa atividade. Esse foi o discurso que deu nascimento ao projeto, mas faltou-nos a dimensão de uma grande obra. Nesse se6ntido, Central do Brasil deixa muitas e ricas lições e a principal é servir de estímulo aos nossos produtores culturais. Porque temos em abundância recursos humanos, ambientações naturais, um imaginário fantástico, capaz de renovar-se e multiplicar-se ao infinito, mas nos falta a crença empresarial no cinema como um grande produto alternativo para nossa região, como foi para a Califórnia, nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do século. Se dúvida houvesse sobre a pujança industrial do cinema, a transmissão do Oscar deste ano a eliminaria. Se restasse alguma incerteza sobre nossa capacidade de produzir cinema para exportar, a grande festa de domingo passado instalaria a certeza. Essas as melhores cenas de Central do Brasil e da festa do Oscar, mesmo não tendo chegado a nossas mãos. O sucesso de "A vida é bela" deve nos servir, também, para quebrar qualquer tipo de complexo de inferioridade, porque o que a Itália for capaz de produzir, nós também seremos. Se nos faltam recursos técnicos para os efeitos especiais e para o preciosismo das grandes produções de Hollywood, sobram-nos criatividade e capacidade artística para repensar o mundo e fazer o discurso dos que acreditam nas coisas humanas mais simples. A simplicidade da gente do Cruzeiro do Nordeste foi capaz de produzir emoções e revelar um filão. Não é preciso muito esforço para perceber a importância que teria entre nós o anunciado pólo cinematográfico da década de 70. Um projeto que poderia ser retomado por todos os notáveis pernambucanos no poder, em sintonia com os que acreditam na capacidade de ativar a economia através da formidável máquina de sonhos chamada cinema. |
|