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ATITUDE
Pais não devem acentuar a culpa nas crianças

Foi quando eu tinha 5 anos. Um amigo de meus pais me chamou para ir com ele à mercearia. No caminho, paramos num terreno quando ele disse que iríamos fazer xixi. Disse que não estava com vontade mas cheguei a ficar nua. Aí ele respondeu que nós iríamos juntar. Eu saí correndo mas a reação em casa foi tão terrível quanto o que poderia ter acontecido no matagal", relata a analista de sistema J.I.S, 38, que jamais esqueceu esse trauma.

Ela conta que, ao chegar em casa, narrou o ocorrido. Seu pai gritava desesperado, e sua mãe jogou-a sobre a cama, abriu-lhe as pernas e começou a banhá-la com violência. "Na adolescência, eu não conseguia me relacionar com meus namorados. Pensava que ninguém gostava de mim e só queriam sexo", relata. "Só depois de adulta é que eu superei e consegui ter uma relação completa".

Quando descobertos os casos, a maior parte dos pais não sabe como lidar com a pedofilia em casa. Segundo os profissionais de saúde e psicologia, o que menos a criança precisa após a molestação é de mais gestos violentos. "Não se deve acentuar a culpa da criança dizendo coisas do tipo: você foi porque quis ou sabia que era errado. É preciso dar carinho, amor e, se possível, procurar ajuda terapêutica" aconselha a psicoterapeuta Albânia de Carli.

Para os pais preocupados com o desenvolvimento sexual saudável dos filhos, algumas dicas são importantes. Elas podem servir de indício para uma provável situação de abuso sexual pela qual a criança esteja passando. Os profissionais da área são unâmimes em afirmar que a primeira reação da criança molestada é uma súbita mudança de comportamento. Quando, por exemplo, a criança é comunicativa e de repente emudece. Ou se há uma recusa em sair de casa como também um medo inexplicado de alguma pessoa próxima, como um tio ou vizinho.

A ameaça mais violenta, entretanto, pode estar dentro de casa. "Com 11 anos meu padastro começou a me assediar. Eu já tinha consciência da situação. Era horrível. Chegava a entrar em pânico se minha mãe inventasse de passar uma noite fora de casa. Suportei tudo até os 15 anos, quando pedi para morar com a minha avó. Nunca cheguei a contar nada a minha mãe: sabia que ele era a vida dela e que a verdade poderia destruí-la", relata a estudante de pedagogia B.B.S, 20, que até hoje mantém o segredo escondido de sua mãe.

Quando a criança aparecer em casa com dinheiro de origem desconhecida ou com objetos de valor, os pais também devem ficar atentos. Como cantos da sereia, esses objetos costumam ser usados como elementos de sedução. Pessoas adultas que apresentem um interesse exclusivo pela companhia de crianças também merecem um olhar clínico por parte dos pais ou responsáveis.

"A criança molestada tem prazer e pode chegar a desenvolver uma certa dependência com o molestador. Mas esse prazer é envolvido com culpa e pode criar problemas seríssimos na vida afetiva e emocional dela. Quando mais cedo for constatado o problema, melhor", adverte a psicanalista Isabel Feitosa. (B.A.)

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Jornal do Commercio
Recife - 21.03.99
Domingo