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Duas vidas, dois heróis Há dias, um estudante de jornalismo me perguntou qual, a meu ver, a maior personalidade do esporte brasileiro, no momento. Não sei se o jovem esperava que eu apontasse alguém do futebol, sem dúvida, a mais popular de nossas paixões esportivas. Poderia ser ou o Gustavo Borges ou o Fernando Scherer. Os dois estão nadando cada vez melhor. Quem sabe o Nalbert, que anda assombrando as quadras da Superliga? Ainda assim, não creio tê-lo desapontado, ao dizer que meu personagem preferido é o iatista Lars Grael. A história esportiva de Lars lembra, em destino, uma figura mais que lendária dos Jogos Olímpicos. São duas vidas, duas carreiras exemplares. Falo de Karoly Takacs, sargento do Exército Húngaro. Ali pelos anos 30, ninguém superava Karoly na prova de tiro de pistola. Mocinho, já tinha ganho a medalha de ouro do campeonato nacional de tiro da Hungria. Era, sempre, a mesma batida: bala na agulha, bala na mosca. Um dia, em manobras militares, uma granada arrancou, por inteiro, o braço direito do sargento Takacs. O acidente ocorreu às vésperas dos Jogos Olímpicos de 1940 que, tal como os de 44, acabariam cancelados por força da guerra. A essa altura, Takacs ainda se recuperava de golpe tão brutal, quando decidiu fazer o que a todo mundo parecia impossível: passar a atirar de mão esquerda, embora fosse destro, da cabeça aos pés. Chegam os Jogos Olímpicos de 1948, em Londres. Num encontro social, o sargento Takacs é cumprimentado pelo então campeão mundial, o argentino Carlos Valiente, que já o conhecia de outras disputas: - "É uma honra pra nós, atiradores olímpicos, ter você aqui pra nos ver competir". Takacs sorriu, delicadamente: - "Me desculpe, mas eu não vim pra assistir aos Jogos. Vim pra competir. Pra competir e pra vencer! Dias depois, o sargento húngaro deslumbrava o estande de tiros, conquistando a medalha de ouro. E pra que ninguém duvidasse da extraordinária força mental do campeão de Londres, quatro anos depois, ele conquistava, de novo, a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque, atirando de canhota. Um prodígio de tenacidade cantado em todas as enciclopédias do esporte olímpico. Karoly Takacs explicaria, com singeleza e humor, o seu milagre: - "Duvidaram de mim, mas não foi por mal. Não sabiam que nasci com três braços: dois no corpo e um na mente." Lars Grael acaba de vencer uma regata de oceano em Ilha Bela. Timoneiro intrépido, ele nos dá um exemplo de espírito olímpico que, certamente, vai além, muito além, do universo esportivo. Lars Grael, navegante, vaga-avante - serena exaltação da vida humana. CRAQUE DESENCANTADO- Desabafo de um jogador, em profundo desencanto com a deturpação do espírito esportivo no futebol brasileiro: "Deixo o campo, não por estar cansado - que não estou. Deixo-o por me sentir fora do meu tempo. Daqueles áureos tempos do futebol brasileiro em que se jogava por esporte, sem a preocupação de esfacelar a canela do adversário mais adestrado. Entendo que deveria haver leis que metessem na cadeia todos aqueles que querem fazer da cancha uma arena de touradas. Só assim, o futebol voltaria a ser, como dantes, uma diversão e um meio de desenvolver fisicamente a mocidade brasileira e não uma fábrica de homens defeituosos e inutilizados". A declaração é de Arthur Friedereich, feita há 64 anos, ao abandonar o futebol. Tinha, então, o grande craque, 43 anos de idade. Era o ano de 1935. A fonte da matéria é "Santa Catarina, 100 anos de História", vol. II, pp 504-505 - Editora Século Catarinense - Florianópolis, 1998. RESSURREIÇÃO - Da série "Lições que o esporte me ensinou": O gol encerra o milagre da ressurreição: a bola que morre no fundo da rede renasce no ato. RÁPIDAS E RASTEIRAS - Tentativa de suborno da Portuguesa de Desportos, junto ao goleiro da outra lusa, na temporada de 98. Um episódio arrepiante. Torpeza. Quero só ver se a Federação Paulista e a CBF vão ignorar tamanha patifaria. ***** PAGINA: 10esp-24.apm FINAL DA COLUNA: 3A parceria Corinthians-Icatu não está desfeita. Pelo que sei, esta semana, dá-se o bate-bola decisivo entre o presidente Duailibi, do Corinthians, e Luis Antonio Almeida Braga, dono do Banco Icatu. ***** Muito se fala da candidatura do Brasil a sede do Mundial de 2006. A CBF está jogando todas as suas cartas nessa parada. Podem me chamar de pessimista, mas não vejo a menor chance. Se não ficar na Europa, na Inglaterra ou na Alemanha, a Copa acabará na África. ***** Chega-me dos Estados Unidos interessante correio em que o leitor conta que é amigo pessoal de Richard Williams, pai e técnico das tenistas Venus e Serena. Por sinal, duas estrelas da WTA. Venus é sexta do ranking; Serena, décima sexta. Eis o ponto principal da revelação, naturalmente, grata a todos nós, brasileiros: Serena, a irmã mais moça, fala português, e a família toda ela, é vidrada no Brasil. A tal ponto que, segundo testemunho do leitor, ele próprio encontrou as duas tenistas e a mãe, Brandy, chorando de tristeza na noite em que o Brasil foi derrotado pela França, no Mundial-98. Pena que o nosso patrício tenha esquecido de assinar a mensagem eletrônica. Correspondências para "Na Grande órea": Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 -Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E_MAIL: xapuri@armandonogueira.com.br |
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