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AVIAÇÃO II
Segurança a bordo terá normas mais rígidas

por FABIANA MORAES

A cena é clássica: o passageiro pede sua sétima dose de uísque à aeromoça. O "Pois não, senhor" da comissária é seguido por uma leve carícia do viajante, que, do alto do seu nível alcóolico, julga estar exercitando sua sensualidade e poder de atração. O caso pode ser resolvido de duas formas: o indivíduo tanto pode receber apenas uma advertência e ter seus drinques suspensos quanto ser indiciado por crime pela Polícia Federal. No que depender das empresas aéreas e e dos órgãos ligados à aviação, essa última opção deve ganhar mais peso nos próximos dias: existem várias propostas para a adoção de regras mais rígidas sobre conduta e segurança nos aviões, uma delas propondo que os livros de bordo sirvam como base para os boletins de ocorrência (BO's) policiais.

"Hoje, se um passageiro comete uma infração grave no avião, ele é retirado por policiais federais assim que a aeronave chega ao seu destino. O registro do delito, no entanto, não é passado para os boletins de ocorrência", diz o coordenador da Comissão de Segurança do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Sinea), comandante Ronaldo Jemkins. O passageiro-problema não é denunciado às autoridades por diversos fatores. Para que a infração seja avaliada pela lei, por exemplo, é preciso que haja testemunhas, ou seja, um tripulante que não esteve envolvido no delito teria que desembarcar e testemunhar a infração.

De acordo com o comandante, os casos mais freqüentes de desrespeito às regras de bordo são as agressões físicas e verbais e o mal comportamento (leia-se assédio sexual, também físico ou verbal), além de porte de armas. "Outro caso famoso é de pessoas que insistem em fumar no banheiro. Como já sabem que existe um detector de fumaça, elas trazem de casa esparadrapos e inserem no dispositivo, além de papel molhado ou copinhos de plástico", conta o coordenador de segurança, adiantando que os comissários de bordo já estão preparados para este tipo de conduta dos passageiros.

O gerente de marketing e comunicação da empresa aérea alemã Lufthansa, Rainer Stabroth, diz que o uso abusivo de álcool é hoje um dos maiores problemas enfrentados pelas companhias. "Dentro de uma aeronave, o álcool tem seu efeito potencializado por conta da pressurização. As pessoas ficam bêbadas com quantidades de álcool que elas consomem com normalidade em outros ambientes", diz Stabroth.

Segundo ele, a saída encontrada pelo comissariado da Lufthansa no caso de passageiros bêbados é a suspensão da bebida, uma das saias justas mais comuns nos vôos diários São Paulo-Frankfurt (um pouco mais de 11 horas de viagem). "Caso o passageiro resista ou tente agredir alguém, é função do comandante da aeronave detê-lo e até mesmo imobilizá-lo na poltrona até o término da viagem. Chegando à terra, ele será entregue à polícia", continua o gerente de comunicação, lembrando de um caso extremo acontecido há menos de um mês, quando o comandante de um vôo Jamaica-Londres teve que pousar a aeronave no meio do caminho porque boa parte dos passageiros estava bêbada.

Como a maioria das violações vêm de pessoas alcoolizadas, as empresas aéreas já começam a pensar na possibilidade de cobrar por cada drinque ou latinha de cerveja servida, a exemplo de algumas companhias aéreas européias e asiáticas. "O preço vai servir como um limitador, as pessoas não vão ficar tão à vontade para pedir várias doses", crê Ronaldo Jemkis. Na semana passada o Departamento de Aviação Civil (DAC) publicou uma pesquisa afirmando que 50% das agressões ocorridas a bordo partem de pessoas alcoolizadas. O departamento vem tentando implantar a idéia de suspender de vez a bebida alcóolica nos aviões.

ATRACADOS NO AR - O comissário de vôo da Vasp, Frank Souza Costa, 28 anos, esteve presente num vôo onde dois passageiros, um deles embriagado, se atracaram numa briga que só foi finalizada após o intermédio da tripulação. "Tivemos que separar os dois, deixando um na classe econômica e outro na primeira classe", conta Souza Costa, declarando que é freqüente o uso de cigarros dentro dos banheiros dos aviões. "Certa vez, quando chefiava um vôo, um senhor foi pego fumando. Conversei com ele sobre os riscos de sua atitude e ele terminou pedindo desculpas, não causou maiores problemas", lembra.

Voando há mais de quatro anos em rotas internacionais, onde são maiores as probabilidades de violações às normas aéreas, o comissário da Vasp diz que a prática do assédio sexual vem diminuindo bastante, principalmente após ser regulamentada como crime. "As aeromoças, que são as maiores vítimas nesses casos, vêm sendo mais molestadas com agressões verbais de passageiros exaltados. Eu nunca sofri assédio, apenas noto umas olhadas mais demoradas de vez em quando", conta.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.03.99
Quinta-feira