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PIAUÍ
As oitenta ilhas do Delta do Parnaíba

por JODEVAL DUARTE
ARTICULISTA DO JC

Quem chega à Ilha Grande de Santa Isabel pela primeira vez não faz a mais remota idéia do que ela representa para o Piauí hoje. Lugarejo com os ares mansos de uma vila de pescadores, a ilha é a ante-sala de um dos mais emocionantes recantos do litoral brasileiro. Que apenas começa a ser descoberto em seu imenso potencial turístico.

Um rio com um nome muito conhecido dos pernambucanos, Igaraçu, separa a Ilha Grande e a cidade de Parnaíba, no continente. Aí começa a identificação geográfica com eventos históricos marcantes, como o Porto das Barcas, um centro de exportação no começo do século, quando o Piauí estava entre as mais poderosas economias do país. Lá estão preservados armazéns que abrigam parte dessa memória e atraem manifestações artísticas e culturais.

Quando saímos da acolhedora cidade de Parnaíba, referência obrigatória no estado, uma ponte sobre o Igaraçu nos leva a um caminho estreito - asfaltado, apinhado de ciclistas e margeado por casas pobres e limpas - com terminal no Porto Tatus, onde barcos pesqueiros disputam espaço com grandes lanchas de turismo. Aí, então, o visitante fica sabendo que deu o primeiro passo e está em uma das mais de 80 ilhas e ilhotas do delta do Parnaíba, orgulho incontido dos piauienses.

O delta, todos sabem de cor e salteado, é um dos três mais notáveis do mundo - os outros são o do Mekong e do Nilo - fruto do rio Parnaíba, depois de percorrer 1.485 quilômetros, banhando muitos municípios e deixando em seu percurso praias fluviais. Na foz, quando deságua no oceano Atlântico, ele forma um arquipélago com 2.700 quilômetros quadrados, subdividindo-se em cinco ramificações: Igaraçu, Canárias, Caju, Melancieira e Tutóia. Todos no Piauí conhecem essas informações, mas quando fala delas o governador Francisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa, ressalta que a subdivisão se faz como uma mão. Para ele, um símbolo especial, porque consolida sua liderança política.

ECOLOGIA - Nos 2.700 quilômetros quadrados do delta, parte do Maranhão, parte do Piauí, estão reproduzidos alguns cenários amazônicos, como trilhas estreitas da mais alta vegetação de mangue conhecida e muitos igarapés. De contraponto ao verde, imensas dunas de areia branca e praias das mais convidativas.

O visitante quando chega a Tatus, porto de partida e chegada do delta, está longe de perceber toda a beleza que vai encontrar no caminho que leva até a Baía de Tutóia, passando pela Ilha do Papagaio, Ilha do Igoronhon, Barracoa, Manguinhos e Santa Cruz. É preciso quase um dia para percorrer o roteiro, uma pequena mostra dessa atração turística, tida no estado do Piauí como uma referência em projetos turísticos.

O Tatus tem algumas casas, mas o ponto central é uma bodega de onde se contempla a partida dos barcos e onde pescadores estão sempre solícitos para falar das trilhas turísticas, algumas das quais fonte de seu sustento na pesca, como foi de seus pais, de seus avós. Eles falam, sem qualquer sinal de inveja, de ilhas particulares, das mais bonitas, das inacessíveis, de áreas intocáveis, exuberantes em fauna e flora. No imaginário da Ilha Grande, o tempo e a rotina não apagam a impressão forte deixada pelos jacarés, pelos macacos e pelas aves das trilhas do delta. A ilha dos Poldros, que fica mais próxima do modesto porto, é muito citada. Mas tem a da Barreira que, segundo os pescadores, está à venda. Eles fazem o anúncio com um ar vago de quem não está bem certo do que está falando. Quem já se viu comprar uma ilha? Riem e fazem projetos.

Barreira é feita do verde de coqueiros e vegetação rasteira, mas o que impressiona são as dunas, imensas, brancas, ganhando contornos diferentes a cada dia pela força dos ventos. Mais adiante, os devaneios chegam à Ilha do Caju, pertencente aos herdeiros de James Clark, um estrangeiro que deixou farta memória no Piauí. Para chegar lá, é preciso contornar a Ilha das Canárias e entrar na Baía do Caju. Tem até hotel, diz a menina Maria, que atende na bodega sob o olhar vigilante do avô, velho pescador, conhecedor como poucos das ilhas. Ela pinta o delta como um paraíso habitado pelos pássaros, e onde é inimaginável uma arma, a tentativa de um só ser abatido.

POTENCIAL - Quem visite o Palácio de Karnak e tenha contato com o governador Mão Santa receberá o primeiro testemunho apaixonado desse monumental acidente geográfico, que ele parece querer mostrar como o símbolo da grandeza de seu estado. Berço, inclusive, de uma das vertentes da civilização piauiense, que vai buscar numa revisão da história, garantindo que o melhor da ocupação de seu estado se deu a partir do litoral, exatamente no delta, e não do interior, como se costuma ensinar.

Mão Santa abre qualquer conversa sobre o Piauí com um documentário do delta. E não cansa de chamar atenção para o imenso potencial turístico do Piauí. De Parnaíba à Serra da Capivara, em São Raimundo Donato, passando pelas belas praias dos 66 quilômetros de litoral, pelo Parque Nacional de Sete Cidades e pela cachoeira do Urubu, entre tantas outras atrações.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.03.99
Quinta-feira