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ABL
Roberto Campos chega até a imortalidade sem unanimidade

O economista Roberto Campos, 82, o mais novo membro da ABL (Academia Brasileira de Letras), toma posse no próximo dia 26 de outubro e, como manda a tradição, deve fazer um discurso homenageando o antecessor - o autor de teatro e novelas Dias Gomes, um intelectual que tinha posições diametralmente opostas às suas. Além de lembrar a importância da obra do dramaturgo, Campos pretende dizer que sua presença ali prova que a ABL é "uma instituição plurifacetada, em que não se discute ideologia, só conhecimento".

Campos foi eleito quinta-feira à tarde em uma votação bastante equilibrada: recebeu 20 votos contra 16 para a ensaísta e crítica literária Bella Jozef. O ex-ministro do Planejamento do governo Castello Branco (1964-1967) ocupará a cadeira 21 da ABL, sucedendo o dramaturgo Dias Gomes, morto em maio.

O resultado mostra a divisão entre os membros da academia. Com Campos, ex-senador pelo PDS-MT (1983-1990) e ex-deputado federal pelo PPB-RJ (1990-1998), estava a chamada ala direita da ABL. Os acadêmicos Antônio Olinto, Tarcísio Padilha e Ledo Ivo foram os principais articuladores de sua campanha. Contra Campos uniram-se acadêmicos como Celso Furtado, João Ubaldo Ribeiro, Barbosa Lima Sobrinho, Ariano Suassuna e Marcos Almir Madeira, que protestaram contra o fato de o ex-ministro, que se diz um liberal, vir a substituir um homem assumidamente de esquerda.

"Eu sou um homem controverso. Esperava um resultado equilibrado porque não sou homem de unanimidades", disse Campos, logo após ser informado da vitória, por telefone, pelo acadêmico Antônio Olinto. "Esse acirramento de opiniões em torno de ideologias não podia mais existir, justamente quando o mundo vê o fim das ideologias", disse ele, enquanto recebia, em seu apartamento, os abraços de amigos.

"Quem me conhece sabe em quem eu votei. Não estou infeliz, mas também não vou falar mais nada para não dividir a Academia", disse Ubaldo, presença rara na ABL - ele vota por carta. Celso Furtado, um dos principais articuladores da campanha de Bella Jozef, não quis falar sobre a eleição de Roberto Campos. "Não tenho nenhum comentário a fazer", disse, deixando a sala onde foi feita a votação. "Não se pode fazer restrição ideológica ou de qualquer natureza aqui. A Academia não é lugar para esse tipo de comportamento", disse o presidente da ABL, Arnaldo Niskier.

Após lembrar que a cadeira 21 é marcada pela alternância, tendo sido ocupada por intelectuais de diferentes ideologias, Campos disse que já se considerava imortal há algum tempo. "Desde que o artigo 230 da Constituição de 1988, que ajudei a elaborar, disse que a sociedade deve respeitar os idosos", brincou ele, que em 1994 lançou seu livro de memórias Lanterna na Popa.

A mesma frase ele repetiu ao presidente Fernando Henrique Cardoso, quando este lhe telefonou parabenizando-o. "Agora espero ver o senhor do lado de cá também", acrescentou o novo imortal.

Catorze acadêmicos estiveram presentes à sessão que elegeu Roberto Campos, e 22 votaram por carta. Apenas Jorge Amado não votou. A ABL tem 40 membros. Até a eleição desta quinta-feira, havia duas vagas: a de Dias Gomes e a de Herberto Sales, cujo sucessor será eleito em março de 2000. Afonso Arinos de Mello, eleito em julho, não votou porque ainda não tomou posse.

Campos enfrentou, para sua eleição, a oposição da viúva de Dias Gomes, Bernadeth Lizyo. Ela havia afirmado à Folha de S.Paulo: "Nada tenho contra Roberto Campos. Apenas defendo a posição do Dias. Campos é o extremo oposto dele. Dias caminhava pela esquerda. Campos, pela direita". Em resposta, Campos dissera que as esquerdas estavam querendo criar uma "reserva de mercado na Academia. Lizyo ameaçou retirar o corpo do dramaturgo do mausoléu da ABL caso o economista fosse eleito, o que causou outra briga - dessa vez, com os filhos do primeiro casamento do dramaturgo. Hoje, Lizyo disse que não pretende fazer isso agora. "Vai levar uns dois anos, e não tenho condições de resolver no momento", disse a viúva.

A opinião de artistas em relação ao ingresso de Roberto Campos na ABL:

"Qualquer tipo de proibição não faz mais sentido. De repente fica parecendo que a Academia Brasileira de Letras é um centro de pessoas que não podem co-existir com a diferença e que a casa seria um reduto de um determinado grupo ideológico. Não vejo sentido em se fazer esse tipo de proibição. Isso é um radicalismo tão grande quanto qualquer outro."

João Denys, teatrólogo e escritor

"Não me interresso absolutamente sobre os destinos da imortalidade. Eu desprezo a imortalidade das academias, sejam elas quais forem. Afaste de mim esse cálice da imortalidade. Isso é uma herança da fase histórica do tropicalismo".

Jomard Muniz de Britto, agitador cultural

"Não gostaria de me expressar mais sobre o assunto, uma vez que vou conviver com ele na Academia".

Ariano Suassuna, escritor, da ABL

"Eu li tantas denúncias sobre Roberto Campos no livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que não quero fazer nenhum comentário sobre a eleição. Quero ficar fora disso."

Hilda Hilst, escritora

"Roberto Campos só tem a engrandecer esta instituição. O que houve na eleição dele foi na verdade uma falta de respeito de algumas pessoas da Academia e, principalmente de fora dela, com este grande nome. A cadeira 21 que Roberto está ocupando é uma cadeira que já passou por nomes de extrema direita e de extrema esquerda. O que a gente vê, na verdade, é uma intriga que acontece do lado de fora da Academia, porque aqui dentro não há maiores discussões".

Antônio Olinto, escritor, da ABL

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Jornal do Commercio
Recife - 25.09.99
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