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PERSONAGEM
Morre o último presidente militar

RIO DE JANEIRO - Morreu ontem, por por volta das 9h, o ex-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, 81, em seu apartamento no condomínio Praia Guinle, em São Conrado, na zonal sul do Rio. Ele sofria de insuficiência renal e cardíaca. O enterro está previsto para hoje, às 11h, no cemitério do Caju (zona norte). O velório, por decisão de sua mulher, Dulce Figueiredo, foi realizado no próprio apartamento, com a presença unicamente de familiares e amigos próximos da família.

João Baptista Figueiredo vivia desde 1995 fazendo hemodiálise, já que seus rins não conseguiam mais filtrar o sangue. Naquele ano, ele foi operado para que fosse eliminado um aneurisma (dilatação) da artéria aorta. No último dia 30 de novembro, o ex-presidente foi internado no hospital São José, em Botafogo, onde permaneceu por uma semana. Na ocasião, seu médico, Aloysio Salles, considerava a insuficiência renal de Figueiredo como "insolúvel". Além dos problemas com os rins, Figueiredo sofria de hérnia de disco, incontinência urinária e tinha a visão reduzida em 70% da capacidade normal. O presidente Fernando Henrique Cardoso decretou luto oficial por três dias.

"Ele morreu com muitos segredos", disse Antonio Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comércio, um dos primeiros amigos a chegar ao apartamento de Figueiredo. A pedido dos amigos, Figueiredo chegou a iniciar a gravação de um depoimento sobre seu período de Governo, entre 1979 a 1985, e de sua gestão no SNI (Serviço Nacional de Informações), a partir de 1974. Segundo Santos, Figueiredo se cansou com os depoimentos e decidiu destruir as fitas que já havia gravado.

Último presidente do regime militar, o general-de-Exército João Figueiredo marcou seu Governo por um jeito rude de fazer política, mas que não impediu que, ao fim de seu mandato, fosse concluída a transição para a democracia. Mesmo realizando um Governo menos autoritário que antecessores como Emílio Garrastazu Médici (69-74), ele jamais foi um presidente popular. A tentativa de caracterizá-lo como o `João do Povo' fracassou, entre outros motivos, por seu temperamento. Por exemplo, em 78, antes mesmo de assumir o cargo, soltou a seguinte afirmação: "Prefiro o cheiro de cavalos ao cheiro do povo".

Em abril de 78, então apontado por Ernesto Geisel como candidato oficial à sua sucessão na Presidência da República, concedeu uma polêmica entrevista à Folha de S. Paulo. Sem rodeios, Figueiredo disse que os países chamados de democratas não eram tão democratas como se pensa; o povo não estava preparado para votar; os empresários não queriam privatizar as empresas estatais, queriam recebê-las em doação; e não existia opinião pública.

Na entrevista exclusiva aos jornalistas Getúlio Bittencourt e Haroldo Cerqueira Lima, Figueiredo deu sua opinião sobre democracia. Ele afirmava que "democracia plena não existe". Também disse que não havia opinião pública. "A opinião pública não existe. Vocês (os jornalistas) é que a formam. Se vocês quiserem, vocês mudam a opinião pública", afirmou.

Com a repercussão da entrevista, Figueiredo pensou em desistir de concorrer à Presidência da República e foi orientado pelo hoje senador Antonio Carlos Magalhães (PFL/BA) a negar o teor da entrevista. O general não fez uma coisa nem outra.

Concluído o seu mandato, em 1985, Figueiredo entregou a José Sarney um país em crise, mas que vivia a expectativa de uma democracia adiada por 21 anos. Recusou-se a entregar a faixa presidencial a Sarney na transmissão - Tancredo Neves havia sido internado na véspera e nunca viria a exercer a Presidência. Na posse do ex-aliado Sarney, deixou o Planalto pela porta dos fundos.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.12.99
Sábado