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ARTIGO

Dúvidas

por FÁTIMA QUINTAS*

O dia amanhece chuvoso. Afinal, é tempo de inverno. Da varanda aprecio o amanhecer que se esconde entre nuvens pesadas, um céu clamante por chuva, o ar fresco balançando as folhas, a natureza aguardando as águas bem-vindas para um Nordeste vitimado pela seca. Penso na minha gente de terras distantes, lá para as bandas do Sertão, mendigando uma fatia social que há muito lhe foi negada. Horroriza-me o gado morrendo de sede, as plantas transformadas em galhos esturricados, o cenário a desenhar o fim do mundo. Mas é começo de dia. E tenho a sensação de que a vida ressurge, trazendo-me uma porção mágica de sabedoria. Não quero rememorar desalentos. Que eles se diluam no calendário do passado. O relógio badala cinco horas da manhã; estou plena de esperanças. É tão cedo que chego a tocar-me para sentir-me por inteira. Notívaga inveterada, espanto-me com o prazer de descobrir a alvorada. Eis-me diante de um horizonte que me é estranho. Vou abraçá-lo com a perplexidade de quem o descobre pela primeira vez. Preciso de todos os começos.

Rodeada de imbés, gladíolos, jamaicas, vejo o mundo. A cor é cinza porque o sol reage a sair. Reclama o mínimo de espaço, mas a neblina vence e a imagem se confunde com as pinturas que um dia, não sei quando, espalhei em aquarelas desmaiadas. Os fundos de quintal chamam-me a atenção. São tão semelhantes! - guardam com a máxima segurança segredos de infância. Uma criança corre atrás do cachorro, ambos brincam espontaneamente. Caem no chão, melam-se na terra molhada, driblam os adultos que a chamam para o desjejum. Adiante, dois homens revolvem o jardim, fofando o húmus e preparando a gleba para plantar um pequenino pé de papoula. Tagarelam insistentemente, esquecidos de possíveis crises econômicas. Aparentam ser jardineiros, envolvidos com a tarefa de aparar a grama, extrair as ervas oportunistas, aguar as trepadeiras que se alastram pelas paredes do muro. No terceiro quintal, diviso uma lavadeira a remexer numa grande trouxa de roupa, presa por um lençol branco, cujo nó dificulta a retirada das peças. A mulher se inquieta, puxa um grampo do cabelo, ajeita as pontas do nó e, por fim, consegue desatá-lo. Blusas, calças jeans, camisas de homem, toalhas de mesa, roupa de cama anunciam a labuta do dia. Seu jeito é leve, cantarola alguma música, não tem muito com que se arreliar. Pega o sabão em pó, despeja na bacia amarela, joga as peças brancas e deixa de molho. Suas mãos agem freneticamente, demonstrando uma enorme habilidade no métier. Divide o rol de roupas em pequenos montes separados por cor, distingue aquelas que mancham, produz a espuma necessária e sai à procura de pegadores para reservá-los no canto direito da velha mesa corroída pelo abandono, que repousa no alpendre coberto por telhavã. Espreito minuciosamente o trabalho. Tenho uma certa inveja. Ou melhor, uma grande inveja. A postura decidida, rápida e eficiente me transmite uma personalidade forte, sem as hesitações tão comuns ao meu temperamento intimista. Seu rosto, um tanto enrugado, mostra-me os sulcos da experiência. Não duvida de nada a mulher que eu avisto.

Somente eu tenho dúvidas! Por quê? Até quando? Não quero respostas. Basta saber-me a mais frágil das criaturas.

* Fátima Quintas é antropóloga da Fundaj


Jornal do Commercio
Recife - 26.07.99
Segunda-feira

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