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ARTIGO Transgênicos: ciência, ética e dominação por GLACI ZANCAN* É preciso deixar claro que somos favoráveis ao emprego das técnicas modernas para manipulação genética de plantas e animais na busca de melhores condições de vida para a população brasileira. A nossa posição como cientistas responsáveis é estudar todas as alternativas para obter da técnica o máximo de resultados com os menores riscos possíveis. O fato de se ter criado a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), com representação da sociedade, revela a preocupação com o impacto da tecnologia de DNA recombinante com o futuro da saúde pública e do meio ambiente. A análise do desempenho da CTNBio mostra que a mesma realizou um trabalho importante no delineamento dos instrumentos legais que norteiam a manipulação de organismos geneticamente modificados (OGM) e da implantação da rede de controle. A comissão, no entanto, não foi suficiente exigente na análise da documentação constante do processo de desregulamentação da soja transgênica e por isso vem sendo bombardeada com críticas. A autorização para o plantio experimental da soja transgênica, no país, foi feita em 1997 e, após um ano, foi exarado pela CNTBio um parecer favorável à sua liberação comercial, mesmo após haverem especialistas da comissão levantado o problema da insuficiência de dados relativos ao impacto ambiental, apesar de a soja ser uma cultura exótica. O mesmo poderia ter sido levantado com relação à segurança alimentar considerando a manifestação do genoma modificado da soja, sob as condições de estresse térmico, salino e hídrico decorrentes dos diferentes ecossistemas nacionais. É realmente surpreendente que uma empresa que investe maciçamente em pesquisa não seja capaz de demonstrar a equivalência, em proteínas, da soja nativa e da transgênica aqui cultivada, quando as técnicas mais modernas para isso estão disponíveis em pelo menos um centro universitário do país. Os alimentos e animais transgênicos vieram para ficar e como cada caso de transgênico é um caso, é importante que a CTNBio, enquanto representante técnica da sociedade, seja irrepreensível na análise dos riscos, considerando o avanço permanente da ciência. Por outro lado é preciso investir em ciência básica para estabelecer protocolos adequados às condições ambientais e à biodiversidade própria do território nacional. Os aspectos técnicos precisam ser analisados visando a salvaguardar o bem-estar futuro da humanidade. No entanto, é preciso ter a noção clara de que o jogo é outro. O que se discute é a produção de alimentos no próximo milênio, por meio do controle do fornecimento de sementes. É a exclusão do mercado de grãos se não houver subordinação aos interesses comerciais das empresas que dominam a pesquisa biotecnologia na área vegetal. O mesmo poderá ser esperado com relação à saúde animal e humana quando se observa que os investimentos das empresas ultrapassaram aqueles feitos pelo sistema público de apoio à ciência e à tecnologia nos países de vanguarda tecnológica. Conhecimento é poder e a tecnologia pode ser dominação se a sociedade não souber estabelecer os limites. Consideramos ser nossa responsabilidade social alertar para os impactos, riscos e benefícios de uma técnica poderosa que pode modificar a vida do homem sobre a terra, assim como discutir as implicações éticas de uma ciência e de uma técnica cada dia mais voltada para a dominação econômica dos povos. (Artigo distribuído pela Agência Brasil) * Glaci Zancan é bioquímica e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC). |
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