bqfotool.gif (2761 bytes)
LG_jc.gif (3670 bytes) CB_brasil.gif (6025 bytes)
MP_brasil.gif (5256 bytes)


ARTIGO

Mestre Parahym

por EDGAR MATTOS

Um tanto avesso ao necrológio, esse gesto tardio de proclamação de méritos por vezes tão duvidosos que parece homenagear no falecido apenas a grande façanha de haver morrido, não corro aqui semelhante risco. Isso porque, no caso, meu personagem, embora recentemente desaparecido, é um desses homens que, ainda em vida, lograram obter o reconhecimento dos seus contemporâneos, de molde a dissipar por completo as suspeitas daquela proverbial generosidade que costuma caracterizar as saudações fúnebres. Trata-se, como já anunciei no título, do Mestre Orlando Parahym de quem pretendo apenas destacar, com meu modesto testemunho, a simplicidade inerente aos verdadeiros sábios.

Nos idos de 1967, quando assumiu a Secretaria de Educação do Estado o Dr. Roberto Magalhães, tive a oportunidade, como seu auxiliar, de sugerir-lhe, para a direção do então Departamento de Extensão Cultural e Artística (DECA), o nome de Orlando Parahym. Embora considerasse excelente a sugestão, o Secretário ponderou-me que o cargo não estava à altura da projeção do indicado, um ex-Secretário de Saúde, ex-deputado estadual e, sobretudo, um intelectual de proeminência em nosso meio cultural. Ocorre que, como eu já sabia por conhecê-lo de perto, amicíssimo que era de minha saudosa tia Carmen Gomes de Mattos, Parahym era desses poucos que não buscam nos cargos públicos formas de promoção pessoal. Ao contrário, era ele, pelo seu valor, pela sua estatura intelectual que conferia enorme dimensão à função exercida fosse ela qual fosse. Conseguia ele assim ser sempre maior do que o cargo eventualmente ocupado. Daí que aceitou sem qualquer constrangimento aquele convite, vendo-o como uma oportunidade de fazer o que mais gostava: contribuir para a formação cultural dos jovens alunos da escola pública.

Lembro-me, ainda, que foi ele, também, por breve período, diretor da Biblioteca Pública Estadual, enfrentando a reação corporativa de algumas bibliotecárias que, preocupadas mais com o Poder do que o acervo, não se conformavam em colocar sua técnica sob o comando de quem - certamente mais do que qualquer delas - tinha pelos livros o carinho e o desvelo de um amigo íntimo...

Dentre suas preocupações de higienista atento, área em que concentrou seus estudos de Saúde Pública, referia-se constantemente ao problemas da enorme proliferação dos ratos (no caso, os de quatro patas...) em nossa cidade, praga que, segundo ele, poderia - se não devidamente combatida - converter-se num caso de calamidade sanitária. Queira Deus que a reincidência recente, no Recife, de alguns casos de uma suspeitada leptospirose, com registro de vítimas fatais, ainda não sejam os indícios da tragédia advertida pelo Mestre.

A grandeza de Orlando Parahym, que a sua congênita simplicidade não conseguia esconder, ressaltava nas diversas facetas da sua múltipla e destacada atuação intelectual. Pertencia ele a uma categoria em extinção entre nós: a do homem erudito. Na era das especializações, já não se cultivam saberes tão abrangentes.

Assim era o Mestre Parahym. Quem privou de sua convivência beneficiou-se para sempre do seu "espírito de luz". Daí, sob esse aspecto, se poder afirmar que só o perdeu quem não teve a enorme ventura de conhecê-lo.

* Edgar Mattos é Procurador Jurídico da Fundaj


Jornal do Commercio
Recife - 28.07.99
Quarta-feira

bqfotool.gif (2761 bytes)