LG_jc.gif (3670 bytes)

ETERNA MUSA
A perfeita tradução Blues

por CAROL ALMEIDA

Segundo as leis da Física, a expressão queda livre pode ser explicada numa simples equação matemática. No entanto, para a enorme legião de tristes, deprimidos e, sobretudo, apaixonados de plantão que vigiam as noites solitárias do Planeta, o movimento de queda livre só pode ser concebido no somatório de duas palavras: Billie Holiday. Durante mais de 20 anos de carreira, a cantora parecia estar sempre jogando a voz do alto de sua dor mais forte. E foi assim que ela se tornou conhecida e idolatrada por quase uma unanimidade de músicos, críticos e consumidores de sofrimento gratuito e gratificante.

Neste mês de julho, a música completou 40 anos sem Billie Holiday. Ficaram as inúmeras gravações, uma quantidade ainda maior de fãs e seu nome permanece no topo da lista dos mais famosos intérpretes do jazz. Lady Day, apelido dado pelo saxofonista e amigo Lester Young, ainda é a maior responsável pela formação musical de quase todas as atuais cantoras de jazz ou blues. Recentes sucessos do mercado fonográfico como Erikah Badu, Lauryn Hill, Beth Gibbons (do grupo Portishead) e até mesmo as brasileiras Maria Betânia e Gal Costa são exemplos disso.

Todo esse invejado currículo post mortem de Lady Day se justifica pela sua própria vida nos bastidores dos palcos. Assim como as letras das músicas que interpretava, Billie abusava do direito de sofrer. Possivelmente, a maior contribuição para seu sucesso foi justamente a alta dose de tragédias pessoais que ela viveu: viciada em heroína, presa por porte de drogas, abandonada e violentada por uma fila de homens. Tudo isso aconteceu num curto espaço de tempo cheio de altos e baixos.

Filha de um casal de crianças (sua mãe tinha 13 e seu pai, 15 anos de idade na época), Billie Holiday nasceu em Baltimore, costa leste dos Estados Unidos, em 1915. Passou quase toda a infância e adolescência sozinha, o que aumentou ainda mais seu senso auto-destrutivo. Quando, no começo da década de 30, passou a tocar em bares do Harlem, ainda hoje reduto da comunidade jazzística, conseguiu seus primeiros contatos com os maiores ícones da música negra de então. Sua primeira gravação aconteceu com a popular orquestra de Benny Goodman e, assim, Miss Billie Holiday comprou sua passagem para uma das carreiras mais conturbadas de todos os tempos.

ASCENSÃO E QUEDA - De uma hora para outra, a cantora passou a receber centenas de envelopes contendo letras de músicas, compostas especialmente para ela. Sua parceria com nomes como o próprio Benny Goodman, Irving Berling e até mesmo Frank Sinatra. Com quase todos eles, Billie mantinha uma relação que transcendia o profissionalismo e chegava a estágios de envolvimento sexual. Em meio a essa teia de relações, Lady Day cantava, ou melhor, vivia a música. E esta parecia ser sua grande válvula de escape, a única maneira de mantê-la incólume à névoa de fumaça dos bares e dos desastres pessoais.

Seu primeiro grande sucesso surgiu com Strange Fruit, uma composição sobre anti-racista que tornou-se permanente em seu repertório. Mais tarde, veio o maior hit de todos, Lover Man: "Algum dia nós vamos nos encontrar, e você vai enxugar todas as minhas lágrimas". Assim como Lover Man, as letras que chegavam à voz de Billie retratavam exatamente aquilo que ela, mais do que ninguém, conhecia: o medo de uma derrota anunciada. Seus relacionamentos eram quase sempre desastrosos e isso transparecia quando Billie Holiday cantava.

Outros sucessos como My Man, Lady Sings The Blues e Don't Explain (uma das poucas composições próprias de Billie) vieram na medida em que sua vida ficava cada vez mais pertubada. Seu repertório musical era sua melhor auto biografia. Ela conseguia cantar frases como "Eu sou uma idiota em te querer" (I'm a Fool to Want You) com as mesmas lágrimas com que era abandonada pelos seus inúmeros "maridos".

"Eu não acho que esteja cantando, sinto como se estivesse tocando um trompete, o que sopra pra fora é o que sinto", disse em certa ocasião a cantora. O som do trompete aliás, foi o timbre que melhor definiu a voz em sua curta carreira. Ainda nos anos 40, ela já não era mais a mesma. Desgatada pela heroína e pela violência de "seus homens", a diva descia aos poucos de seu pedestal. Em 17 de julho de 59, a polícia foi informada que Billie portava heroína em seu apartamento. E enquanto os policiais anunciavam sua voz de prisão, Lady Day era levada a um hospital. Antes de ser presa pela segunda vez, a maior intérprete do jazz de todos os tempos morreu de cirrose.

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 28.07.99
Quarta-feira