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Política contra o povo

Insistir não ofende. Há alguns meses, uma notícia corria pelo Brasil: no Sertão do Pajeú, na cidadezinha de Quixaba (a 430 km do Recife, 7.200 habitantes), um prefeito analfabeto, Antônio Ramos da Silva, dava prioridade absoluta à educação. A cidade tem 25 escolas, o que dá uma escola para cada grupo de 288 moradores, na contramão das estatísticas regionais. A cidade também tem duas bibliotecas, com 4 mil livros, e paga a seus professores um salário inicial de R$224; algo também pouquíssimo comum na região. Veio a eleição de 1996, quando ainda não se usava reeleição. Mudou o prefeito. Agora, trava-se uma disputa política que poderá inviabilizar as conquistas obtidas nesse importantíssimo setor. Coisas de um país sem cultura democrática e sem um projeto nacional engajando toda a sociedade.

Uns 15 anos atrás, outra cidade pernambucana e outro prefeito, Yves Ribeiro, também viraram notícia nacional. O caso ocorreu em Itapissuma. O BID ofereceu ao prefeito um empréstimo para reforçar a capacidade de investimento do governo municipal. Juros baixos e longo prazo para pagamento. Temeroso de assumir o compromisso, ele, numa atitude inédita, convocou a população à praça pública para opinar sobre a oferta. Explicou o mecanismo desses empréstimos e não esqueceu de advertir que seu reembolso comprometeria o orçamento municipal durante certo tempo. Democraticamente, a população decidiu que não se aceitasse o empréstimo. Situação impensável, num contexto de costumes políticos que levam governantes a contrair dívidas irresponsavelmente e deixar o ônus para seus sucessores e o contribuinte. Surpreendido, o BID doou o dinheiro a Itapissuma a fundo perdido. Isso não garantiu, para o futuro, mudança na rotina de politicagem e má administração.

Não é difícil melhorar a qualidade de vida da população, desde que governantes, políticos em geral, empresários, sociedade organizada, decidam empregar meios e providências adequados para fazê-lo. No mesmo dia em que o Jornal do Commercio reportava a crise político-partidária que tem o potencial de prejudicar o esforço educacional de um homem que sentiu na própria pela a falta que fazem o ensino, a educação, a capacitação técnica; nesse dia, uma outra reportagem da nossa equipe dava conta de mudança para melhor na mesma região do Pajeú, envolvendo também o Sertão Central e o do Moxotó. A irrigação com água de poços artesianos está trazendo para essas áreas, sujeitas a estiagens prolongadas, produção organizada, empregos, desenvolvimento.

Temos abordado o tema do papel da sociedade na solução de problemas comuns. Nunca é demais nele insistir. No distrito de Fátima, em Flores (Sertão do Pajeú), freiras da congregação Filhas de Sant'Ana montaram um pequeno projeto de irrigação num terreno, arrendado, de 30X60m, onde se cultiva uma horta comunitária, sem o emprego de agrotóxicos. Muito mais racional do que o que o presidente Fernando Henrique Cardoso chama, com razão, de esmola da cesta básica. Esmola, no baião de Luiz Gonzaga, "mata de vergonha ou vicia o cidadão".

Como já observamos, os poderes públicos têm de fazer sua parte. Na grande área sobre a bacia sedimentar do Jatobá, a omissão de investimentos públicos está inviabilizando o aproveitamento, pelas comunidades, da abundante água de poços já implantados. Em Ibimirim, um projeto de irrigação está abandonado há oito anos. Até os sertanejos já sabem: o que está faltando é decisão política. Certo tipo de político teme que a água inunde e destrua suas plantações de votos de cabresto. Em Mirandiba, porém, a pressão da comunidade e a decisão política transformaram boa parte do município em oásis no deserto, cuja extensão pode se ampliar 20 vezes, segundo o prefeito Antônio Torres (PT). Disputas partidárias e eleitorais não podem continuar passando o povo para trás, nem na área do abastecimento d'água nem na da educação (o caso de Quixaba, a que nos referimos).


Jornal do Commercio
Recife - 28.07.99
Quarta-feira