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PSICOLOGIA
Mãe: para o altar ou para o paredão?

por FABIANA MORAES

Psquiatra atribui às mães a formação do partido mais conservador do mundo, lança cartilha defendendo sua reeducação, e gera polêmica entre profissionais da área

Amadas e odiadas, as mães do mundo - e de todo mundo - voltam a ser tema de mais uma análise psicosocial, desta vez assinada pelo controverso psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, um dos mais conhecidos do país. Gaiarsa, que não economiza na pena quando classifica estas mulheres, atribui a elas a formação do partido mais conservador do mundo, e atira: "Guiadas pelos poderosos, elas limitaram-se a preparar gerações sucessivas para serem dominadas com facilidade, tornando crianças alheias de si mesmas, massa plástica nas mãos de poderosos". O discurso do médico, no entanto, é constestado e até mesmo repudiado por psicanalistas, psicólogos e, claro, por aquela que mais se interessa pelo assunto, Vossa Excelência, a Mãe.

Segundo o próprio psiquiatra, toda a má formação destas mulheres é resultado de uma malévola pressão social, comandada pela frase imperativa "a mãe deve". "É impressionante como empurra-se tudo para as costas delas. É sempre a mãe que sabe, a mãe que vê, a mãe que sente. Costumo dizer que a mulher perfeita é aquela que toda mãe deveria ser, como é idealizada. Mas ela não existe", comenta Gaiarsa.

Na publicação A Cartilha da Nova Mãe (editora Gente, 98 páginas), é proposta uma nova educação para todas as mulheres do mundo, desta vez longe de tantos "nãos", culpas e impedimentos, ações que provocariam, na visão do autor, uma série de desfalques na educação das crianças. O psiquiatra propõe a criação do Partido das Mães, além de um sindicato, que lutaria pela implantação de um salário para toda mulher que tivesse filhos. "Elas fazem parte da classe mais laboriosa do mundo, não têm horários de entrada ou saída, e carregam uma multiplicidade de obrigações", comenta o especialista em sua cartilha.

Mas é na questão educação, e, conseqüentemente, na formação da personalidade, que o médico apresenta suas visões mais radicais. Para ele, a manutenção do regime mundial, agressivo e totalitário, depende muito da orientação dada dentro de casa, onde impera ela, a mãe. Segundo ele, as filhas recebem uma educação diferente dos seus filhos, que, ao atingirem a idade adulta, tornam-se homens agressivos, violentos. "É preciso tornar as crianças mais independentes dos preceitos dos adultos. As mães ainda têm muito o que aprender até educar bem seus pupilos", diz.

A ocupação cada vez maior das mulheres ou mesmo a quantidade de filhos que cada uma tem também são alvos das críticas do psiquiatra, que condena aquelas que hoje optam em parir muitas crianças. "Quanto mais crianças, mais difícil dar atenção a cada uma delas, ou seja, os filhos são supridos daquilo que mais precisam. Cinco crianças numa casa já formam uma mini-sociedade, que é bastante complicada para ser administrada".

MÃE ZEN - Para o psicanalista pernambucano José Carlos Escobar, é difícil propor uma reeducação da mãe, partindo do princípio que sua relação deve ser baseada na naturalidade (que seria subvertida ao ser confrontada com regras e padrões). "A partir do momento em que o psiquiatra propõe estas regras, ele cria valores e se contradiz", comenta Escobar, lembrando que, antes de qualquer coisa, é preciso haver a citada naturalidade no relacionamento.

Outro ponto contestado pelo psicanalista é a concentração de responsabilidades sobre a mãe. "Não é apenas ela que precisa responder por todas essas questões, o pai não deve ser esquecido. A cartilha fala em agressividade mas não especifica que agressividade seria essa, se a positiva ou a negativa. O ambiente hoje é muito hostil, e isso já é um fator preponderante para atitudes mais violentas, que não têm origem alguma na mulher", diz.

O psicólogo Sílvio Romero também vê com cuidado a generalização imposta na cartilha assinada por José Ângelo Gaiarsa, ressaltando principalmente as diferenças entre a mãe ocidental e a oriental. "Não há como negar que as mães ocidentais têm uma característica castradora, superprotetora, resultado da educação dada à elas. As mães orientais são mais zens", declara. O mais importante, segundo ele, é que se evite fechar a visão infantil num só ponto, ação comum entre grande parte das mães de hoje. "Não acredito que elas formem um partido conservador, de maneira alguma. Hoje, as mulheres estão bem mais avançadas que os homens, e se esforçam em quebrar os tabus", ressalta.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.07.99
Domingo