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PSICOLOGIA II
Mães contestam teorias do psiquiatra

Após muito termo técnico, divagações freudianas e sugestões teóricas, entram em campo para analisar as críticas e impressões contidas na Cartilha da Nova Mãe as integrantes do tal Partido Conservador. Tachadas de repressoras, complicadas e até assexuadas, elas, as mães, saem em defesa própria e subvertem as frases de efeito de Gaiarsa: instinto materno ainda é válido, sim, e continua constando na pauta das verdades mais imutáveis do universo. E pontuam: é preciso acabar com a idéia de que as mães são seres onipotentes.

"Sinceramente, acho que é muito machista falar unicamente numa reeducação das mães, se hoje são os pais que estão precisando ser educados sobre a criação dos seus filhos", diz a psicóloga Valéria Sultanum, de 46 anos, mãe de cinco filhas com idades entre 7 e 25. Valéria criou quatro delas praticamente sozinha, e a ela coube durante muito tempo o papel de mãe e pai, que, acredita, foi desempenhado corretamente. Segundo ela, suas cinco filhas são criadas com liberdade, mas estão sempre sendo observadas à distância. "Uma vez, não aprovei um amigo de minha filha, e disse isso a ela. Mas não a impedi de vê-lo, apenas dei a minha opinião", conta.

O número de crianças paridas por Valéria é um dos pontos mais criticados pelo psiquiatra Ângelo Gaiarsa em sua teoria de "mini-sociedade". A médica, no entanto, não concorda com as colocações do psiquiatra. "Dei uma educação a minhas filhas que até hoje não causou problemas. Elas são bem estruturadas, inteligentes. Criei todas de forma diferente, de acordo com a personalidade de cada uma", comenta a mãe.

Outra mãe, a aposentada Maria Helena Rios, 57 anos, também foi a única responsável pela criação de seu único filho Mario, de 31 anos. "Desde os seis meses de idade, mantive o meu filho sozinha. Durante todo este tempo, trabalhei muito, mas mesmo assim reservava um tempo para me divertir. Nunca deixei de viver a minha vida", conta Maria Helena. Hoje, com seu filho já adulto, ela reserva seus dias para viajar e conhecer novas pessoas, e assume que sente dificuldades em se separar do filho. "Acho que é a pior hora para uma mãe. Mas a gente não pode fazer nada mesmo, eles precisam viver a vida deles", conclui.

SEM TÉCNICA - Mãe há apenas cinco meses, a estudante Daniele Maria de Queiroz, 22 anos, diz que sua filha, a pequena Fernanda, vai ser criada com limites, mas terá livre opção de escolha. "Quero ser amiga de minha filha, vou tentar conversar o máximo possível. Mas quero que o pai participe, e para isso abro o espaço que ele precisar", diz Daniele, afastando mais uma vez a idéia de uma onipotência que, já sente, volta e meia lhe é atribuída.

"As pessoas sempre esperam que a mãe resolva todos os problemas de seus filhos, mas isso já seria uma espécie de coercitividade", define o psicólogo José Carlos Escobar. "Na verdade, acho que se esquecermos toda a intelectualidade e procurarmos amar sem tecnicismos, viveremos menos conflitos", conclui. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 25.07.99
Domingo