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ARTIGO
A dor diante de uma separação não desejada

Sinto que meu casamento acabou. Conheci meu marido quando tinha 14 anos, foi amor à primeira vista. Primeiro e único namorado. Namoramos durante quatro anos. Estamos com 30 anos de casados, temos dois filhos (um casal) e um neto. Só senti orgasmo com oito anos de casada, pois meu marido nada fazia para que eu sentisse prazer. Tudo era muito rápido. Nosso relacionamento começou a fracassar nesse período. Mas, para o casamento não acabar, fui estudar. Mulher tem que manter a mente ocupada 24 horas. Com 15 anos de casada fiz a ele uma proposta de separação, pois nosso relacionamento não estava bem. Mas ele não aceitou, e procurou melhorar, a cada dia, mas com o passar dos anos, sem percebermos, foi havendo um desgaste no relacionamento, infelizmente. Amo meu marido, não posso nem imaginar oficializar nossa separação. Fiz uma nova proposta de separação para ver se despertava o gigante adormecido, pois no meu íntimo eu não queria e nem quero viver longe dele. Só que desta vez ele aceitou e não abre mão. Fiz a proposta há dois anos mais ou menos. Eu pedi uma chance. Ainda estamos juntos, mas ele não me procura, está superfrio, sexo nem pensar, ele rejeita, tem sempre desculpas: "Estou cansado", "Estou com sono", "Estou assistindo à TV"... Não sei mais o que fazer. Estou desesperada. ADÉLIA , Rio de Janeiro, RJ

Eram dois amigos que durante anos se reuniam todo sábado para jogar baralho. Era um jogo limpo e sem surpresas, porém contrariando toda lógica: somente um deles ganhava a partida, sempre. A razão desta injustiça era mistério. Certo dia, após finalizar mais uma partida com o mesmo resultado, o ganhador, já sem graça, decidiu não jogar mais com seu amigo e numa atitude generosa se dispôs a revelar as chaves do seu sucesso permanente.

"Durante todos estes anos sempre ganhei porque você acreditou que eu seria o ganhador. É verdade que no começo tive uma fase de sorte. Mas depois ela não foi mais necessária, você mesmo tinha se convencido de que meu jogo seria sempre melhor. Quando recebia cartas boas, ganhava; quando não, blefava, e você, acreditando nas minhas bravatas, entregava o jogo. Você deve saber que é muito fácil derrotar um jogador que se coloca sempre como perdedor". Trocaram um abraço fraternal e a amizade durou muitos anos, desta vez sem baralhos.

Adélia, nossa leitora, se acostumou a perder o jogo no casamento que sempre foi deficitário para ela, exceto por um breve período, há 15 anos, quando ameaçou abandonar o marido. Há dois anos repetiu a ameaça, mas desta vez o recurso não funcionou e, para sua surpresa, o homem aceitou o desafio e se dispôs a sair de casa. Não saiu realmente, apenas disse que ia sair.

Adélia neste momento se sente perdida e desprestigiada, implora ao seu marido uma nova chance. Percebemos que sua relação matrimonial é tão injusta como as partidas dos dois amigos e nada vai mudar se ela persistir na posição de perdedora. Adélia, como milhares de esposas, está convencida de que seu homem sempre tem excelentes cartas e por isso pressupõe que, caso venham a se separar, ele vai se recuperar rapidamente, sem dor, problemas nem angústias.

O que é assustador para ela é fácil para ele. Um homem que durante toda sua vida permaneceu unido a ela, agora poderá se desligar de 30 anos de relação sem alterar seu espírito. Esta premissa é falsa! Se seu marido conseguisse romper seus hábitos e sair facilmente do casamento, sem sombra de dúvida, já o teria feito. Ele não se separou até agora porque tem tanto ou mais medo do que ela, além de se sentir bem vendo sua mulher humilhada, pedindo amparo.

Existem homens que ficam satisfeitos quando ganham pequenas batalhas domésticas. Poucos têm grandeza de espírito para avisar o rival (por quem sentem raiva e amor) de que está mostrando as cartas e entregando o jogo. Por esta razão, nosso conselho tem a intenção de fazer com que Adélia deixe de perder.

Para isso é imprescindível que ela tome consciência de que, caso ocorra uma separação, esta será dolorosa para ambos. Momentos realmente difíceis esperam pelos dois e para isso é fundamental se preparar física e espiritualmente. Poderá permanecer durante algum tempo sem companhia, porém se durante o processo sentir muita solidão e tristeza, deverá ter consciência de que atualmente, mesmo casada, está frustrada e solitária em questões de amor e sexo. Por isso, se tiver talento e conseguir aprimorar seu espírito, caso consiga cuidar bem do corpo e renovar seu guarda-roupas, ou seja, assumindo as atitudes típicas de um vencedor, terá grandes chances de surpreender seu marido.

Nessa hora ocorrem imprevistos, tais como ele se intimidar com seu novo estilo de jogo e então passar a respeitá-la como rival mais perigosa, como foi no passado, o que é preferível a ser uma rival insignificante. Então, quem sabe, ela passe a ser, novamente, a vencedora da partida ou pelo menos, merecer um honorável empate.

* Alberto Goldin é psicanalista e autor de "Amores freudianos" (Nova Fronteira) e "Histórias de amor e sexo" (Objetiva)

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Jornal do Commercio
Recife - 25.07.99
Domingo