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CUIDADOS
O risco da morte súbita em bebês

por JULLIANA MELO

Sandra Calado não imaginava o significado do protetor em forma de travesseiros laterais que foi colocado no berço da sua filha Ana, de três meses, ainda na maternidade. Para ela, essa era mais uma medida de segurança do hospital, já que Maria tinha apresentado problemas respiratórios decorrentes de um defeito congênito e permanecido internada até o momento. Na verdade, o protetor tinha sido colocado com a função de evitar uma posição incorreta e prevenir a criança contra a Síndrome da Morte Súbita - SMS, uma doença que provoca morte de bebês sem uma causa conhecida.

Apesar da SMS ser responsável por considerável percentual de óbitos no período pós-natal e infantil, suas causas permanecem desconhecidas, assim como pouco se tem avançado no que diz respeito à identificação do recém-nascido em risco. Para tanto, não há conselhos que garantam evitar a morte súbita, mas existem formas de tentar diminuir esse risco, que vão desde o posicionamento correto na hora de dormir a cuidados com a temperatura e a conscientização de não fumar próximo ao bebê.

A síndrome do berço ou morte infantil repentina, como também é denominada, acontece geralmente em casa, quando o lactente (criança de 0 a 1 ano) morre enquanto dorme. Estudos recentes divulgados pela Academia Americana de Pediatria têm demonstrado uma associação entre dormir na posição prona (de barriga para baixo) e a doença. Existe o mito, passado de mãe para filha, de que a posição correta na hora de dormir seja a de barriga para baixo. "Essa posição só aumenta o risco da morte súbita, que é bem maior, por exemplo, do que a possibilidade do bebê morrer engasgado com o golfo, como antes era pensado e que ainda hoje é temido", explica a pediatra e neonatologista, Taciana Trigueiro, que também é coordenadora de uma campanha de prevenção para mortes súbitas em bebês, desenvolvida desde maio, no Centro Hospitalar Albert Sabin.

Além dos protetores utilizados no berçário, informações sobre a SMS são repassadas aos médicos e pacientes, através de folders e palestras. "É preciso educar os pais. Só através da informação é que conseguiremos reduzir os índices de mortes súbitas em bebês", ressalta. Esse processo é um pouco lento. A mãe de Ana, por exemplo, apesar de concordar com o uso do protetor e seguir as orientações dos médicos, não consegue entender a doença. "Faço o que me mandam fazer, mas acho que deveria haver mais informações não só sobre como prevenir, mas explicar também o que leva o bebê à morte súbita e o que acontece com o seu organismo", reclama.

Em relação a posição correta, o lactente deve ser deitado de barriga para cima ou de lado. O protetor colocado no berço, que pode ser substituído por rolinhos de tecido e espuma, impede que o próprio bebê retorne a posição prona. O que pode acontecer com a criança deitada de barriga para baixo sobre o cobertor ou qualquer superfície macia é possibilitar a formação de uma bolsa de gás carbônico não dissipado, que se inspirado, provoca uma parada respiratória por falta de oxigênio e consequente parada cardíaca, levando a falência. Outras precauções suscitam controvérsias, como a de que a mãe durma com o filho, sob o argumento de que ela ficará atenta às alterações ou eventuais crises, podendo inclusive a sua presença estimular o bebê a retomar a respiração normal. Muitos pesquisadores condenam, lembrando que durante o sono, a mãe pode rolar sobre a criança.

Outros fatores que levantam várias hipóteses para a doença, já que ainda se desconhece a causa específica, é a relação com a temperatura elevada no ambiente onde dorme o bebê, muitas vezes ocasionado pelo excesso de roupa colocada na criança. "Muitas vezes presenciamos, até mesmo no consultório, os bebês completamente cobertos de roupas, com blusas de manga comprida e tocas e sapatinhos de lã. Em contrapartida, observamos que a mãe está de camiseta. O bebê não precisa agasalhar-se mais do que seus pais", aconselha Taciana Trigueiro. A temperatura ideal do ambiente deve ficar em torno de 35 até 37 graus.

O consumo de cigarros durante a gravidez ou até mesmo próximo aos bebês, tornando-os fumantes passivos, também aumenta o risco da "morte em berço", além de causar outros danos à saúde, como infecções respiratórias, dor de cabeça e náuseas, possibilitando que a criança no futuro sofra do coração ou tenha câncer. Desde que a Academia Americana de Pediatria começou a fazer essas recomendações, há seis anos, o número de mortes súbitas em bebês caiu 30%. Recomenda-se também o aleitamento materno, o que ajuda melhorar as dificuldades respiratórias e evitar alergias.

Uma das dificuldades encontradas para o levantamento de dados e estatísticas sobre a morte súbita em bebês é a falta de indicativos da SMS na certidão de óbito. "O que consta no laudo são apenas as causas da morte, o que pode ser a parada respiratória e cardíaca, mas nada é especificado sobre a morte súbita", critica a pediatra, acrescentando que se isso fosse feito, medidas e pesquisas em relação à doença seriam mais facilmente desenvolvidas.

Os nomes da mãe e da criança são fictícios

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Jornal do Commercio
Recife - 25.07.99
Domingo