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JOELMIR BETTING

Quem dá mais?

Um consultor de investimentos, que adota o disfarce de Antonio Ford Magalhães, estranha menos a farra de incentivos tributários na guerra fiscal entre estados e mais a farra de créditos oficiais na armação de projetos industriais assim incentivados. Diz ele que o BNDES deveria ter outras prioridades na emergência nacional que não o financiamento da Ford na Bahia.

O comentário é do economista Paulo Guedes, na revista Exame desta semana: "Se a Ford, que tem baixíssimo custo de captação de recursos no mercado internacional, prefere alavancar-se aqui no BNDES, é porque ela suspeita até mesmo de nossa taxa de câmbio. Ou seja: ela prefere endividar-se em real, a moeda fraca". O que há por trás e por baixo da guerra fiscal autofágica dos estados, na atração bem intencionada de investimentos industriais, "é uma grosseira falsificação de vantagens locacionais", escreve Paulo Guedes.

Isso carrega, segundo ele, enorme grau de distorções econômicas futuras em nome da superação de enorme grau de distorções econômicas passadas.

Qualquer que seja o formato amaciado da futura Ford baiana, a questão de fundo permanece intocada, no reparo de Paulo Guedes: "A guerra fiscal não deixa de ser uma desesperada tentativa de governos estaduais buscarem compensar políticas públicas desastrosas, as próprias e as federais". De fato, a competitividade industrial do Brasil, qualquer que seja o endereço da fábrica, transporta o caixão sem alça de um sistema tributário obsoleto e caótico. Agravado por um balaio de encargos sociais exagerados (e desperdiçados) sobre a folha salarial das empresas. E o que dizer dos custos portuários anedóticos? Ou dos estorvos burocráticos asininos? E dá para imaginar um garrote financeiro mais estapafúrdio?

Paulo Guedes sustenta que a guerra fiscal só cairá em ridículo total quando o Congresso destilar algo parecido com uma reforma tributária digna do nome: "Tal reforma poderia resolver no atacado o que governadores (e senadores) tentam remendar no varejo. Sem ela, continuaremos perdendo vantagens comparativas regionais e nacionais dentro de uma economia já definitivamente globalizada".

Como é que é?

O professor Robert Barro, de Harvard, bola da vez para o Prêmio Nobel de Economia de 1999 (na mesma raia de Thomas Sargent, de Chicago), diz que "a guerra fiscal no Brasil é o contra-senso de neoliberais viciados em subsídios fiscais".

Dúvida atroz

Se houvesse vantagens locacionais evidentes em se instalar no Rio Grande do Sul, umbigo do Mercosul, nem a cenoura de Antonio Brito nem a repulsão de Olívio Dutra teriam pesado na decisão pró-Bahia da Ford.

Quem ganha?

Ganha a Bahia com a adoção da Ford? Ganha o Rio Grande com o descarte da própria? Resposta no ano 2014, quando se esgota o último tostão de incentivo à futura montadora de Todos os Santos.

Única certeza

É melhor uma Ford na Bahia do que na Argentina. As isenções fiscais referem-se a impostos futuros que não existiriam sem a fábrica funcionando...


Jornal do Commercio
Recife - 28.07. 99
Quarta-feira