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ENTREVISTA / Adalberto Bueno
Nas Forças Armadas há quem manda e quem obedece

Acostumado à rotina da caserna com a qual conviveu por 42 anos, o general Adalberto Bueno, admite ter encontrado dificuldades com a morosidade do andamento das ações no poder público civil. Segundo ele, "nas Forças Armadas tem quem manda e quem obedece. As ordens são dadas e são curpridas. Mas no poder civil, as coisas não funcionam bem desse jeito".

JORNAL DO COMMERCIO - Qual o motivo que o levou a entregar o cargo?

ADALBERTO BUENO - São problemas de ordem pessoal e como tal só dizem respeito a mim.

JC - O sr. sai magoado?

Bueno - De maneira nenhuma

JC - Vai para Fortaleza ou Manaus?

Bueno - Não sei, Manaus ou Fortaleza, por ai.

JC - O sr. acredita ter conseguido operacionalizar a fusão das polícias?

Bueno - Totalmente não. Ainda há um caminho grande a ser trilhado. Na verdade isso só vai se concretizar quando tivermos o amparo do Centro Integrado de Operações de Defesa Social, que já está aprovado pelo governador. É um sistema informatizado que vai propiciar realmente a integração de todos os órgãos de modo a permitir que se controle uma viatura policial aonde estiver. Mas isso é uma coisa que depende de recursos e de outras coisas...

JC - A falta de recursos foi outro motivo para que o sr. deixasse o cargo?

Bueno - Não, porque tenho a perfeita noção das dificuldades do Estado. Não posso pedir mais, porque sei que o Estado não tem.

JC - Precisaria de quanto tempo para unir as polícias?

Bueno - Não posso prever. A PM tem 174 anos e a Civil, sessenta e tantos. Não posso modificar um comportamento de anos de existência num clic. A coisa é devagar mesmo e era esperado.

JC - O corporativismo comum às categorias de servidores também foi empecilho ao seu trabalho?

Bueno - Nós, militares, temos um termo chamado espírito de corpo. E ele é necessário para que as corporações tenham união, dediquem-se ao trabalho, ao cumprimento de seus deveres, com a melhor boa vontade possível e o desejo único e exclusivo de cumprir o seu dever. Quando esse espírito de corpo for desviado para interesses específicos da corporação e de grupos, ai chama-se corporativismo, e isso é negativo.

JC - E o sr. enfrentou esse corporativismo?

Bueno - Houve tentativas de impor decisões, através do corporativismo, mas acho que todos entenderam a decisão política do governador. E se existe, ainda, não está materializado nas ações.

JC - O sr. se sente frustrado por não ter conseguido fazer funcionar plenamente o novo sistema de segurança?

Bueno - Quando pegamos o relatório mensal que fazemos sobre os índices de violência, dá uma angústia danada em ver que a sociedade reclama - e com razão - mas que por uma série de fatores como dificuldades financeiras e tal, impedem que a gente possa executar uma ação que apresente resultados mais significativos. Mas, o importante é que há seis meses estamos numa tendência de queda dos índices de homicídios em todo o Estado. Significa que alguma coisa está dando certo. Especificamente, eu não saberia dizer se é o policiamento na rua, a ação das delegacias que prendeu bandidos e está desbaratando quadrilhas...

JC - Como a prisão do acusado de matar o prefeito de Floresta...

Bueno - É, e veja bem, foi um crime de 92 e só agora o autor foi preso porque estamos desencadeando no Sertão uma operação chamada "Reflorestar" que se destina a prender todo mundo que tiver mandado de prisão decretado. Esse crime foi de 92 e o cara estava tão tranqüilo... Pois é, as coisas mudaram...

JC - Que conselho o sr. daria ao seu sucessor?

Bueno - Dedicação, compreensão com os problemas das corporações do Estado, humildade e incrementar o relacionamento com a sociedade. Hoje, a sociedade está cooperando conosco mandando informações - e nós temos incentivado - através de carta e telefonema anônimos. Não interessa quem está nos informando; interessam são os dados que nos informam. É claro que os resultados nunca são imediatos. Daí, a Operação Reflorestar já ter feito 38 prisões em flagrante, graças à compreensão da sociedade de que deve nos dar os dados que necessitamos. Não é só ficar reclamando que falta segurança...

JC - Com relação à falta de imediatismo nos resultados. O sr. diria que a morosidade da burocracia do Estado também atrapalhou o seu trabalho?

Bueno - A burocracia existe também nas Forças Armadas, que também são formadas por brasileiros. Eu não posso esperar dos órgãos operativos, comportamento diferente do cidadão brasileiro. Daí, ter a compreensão com as coisas, até atingir um índice tal de a operacionalidade atingir cem por cento, o que é difícil.

JC - Mas o poder público civil é mais moroso que o militar?

Bueno - Bom, eu não digo mais moroso, talvez, mais difícil porque nas Forças Armadas tem quem manda e quem obedece. As ordens são dadas e são cumpridas. Mas no poder civil, as coisas não funcionam bem desse jeito.

JC - O sr. passou quanto tempo na ativa?

Bueno - Quase 42 anos.

JC - E quase 7 meses como civil, já que está reformado. O sr. já se adaptou à vida civil?

Bueno - Não tive tempo. Moro na beira da praia e não pude ir à praia uma vez. Mas agora vou ter tempo.

JC - Inclusive, o sr. mudou até de endereço: saiu da beira-mar de Candeias para Olinda...

Bueno - Não estou morando em Olinda. Moro em Candeias.

JC - Morava, mas agora está hospedado em Olinda.

Bueno - Quem lhe disse isso?

JC - Quem disse é outra história... Há uma semana que o sr. está lá. Está ou não?

Bueno - Só se me disser quem disse...

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Jornal do Commercio
Recife - 28.07.99
Quarta-feira