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FALHAS
Pressa é inimiga de Wilde Portela

por JOSÉ TELES

O jornalista Wilde Portela foi contemporâneo da cena iê iê iê recifense. Na adolescência, Portela participou dos Beatles Boys, conjunto de iê iê iê de Jardim São Paulo e chegou a abrir um show de Reginaldo Rossi, em 1966, quando este já era sucesso nacional, com O Pão. Ninguém melhor que ele, então, para escrever sobre o maior nome da Jovem Guarda pernambucana e hoje o mais bem-sucedido cantor popular de Pernambuco. É o que ele acaba de fazer, pela Editora Micro Vega, mandando às lojas Reginaldo Rossi - O Fenômeno.

No livro, transparece, no entanto, mais o fã, uma vez que o texto é extramemente apologético ao artista. Metade do livro, aliás, é gasto com depoimentos de amigos e empresários, que obviamente cobrem Reginaldo Rossi dos maiores encômios. Entres eles estão o empresário Pinga, o amigo Michael Sullivan, Roberta Miranda, o apresentador de TV Fernando Castelão e o próprio empresário do cantor, Sandro Nóbrega, que obviamente nunca iria além dos elogios.

Tudo bem que o livro não pretende ser exclusivamente biográfico. Até porque do pouco que é dito sobre a vida de RR, a maior parte já era conhecida de entrevistas. Não há, por exemplo, referência a sua vida amorosa (para uma das mulheres com quem viveu, em São Paulo, Reginaldo Rossi, deixou como pensão os direitos fonomecânicos de parte de sua obra. Um fato importante, que não está nos livros).

O autor passou mais de um ano pesquisando para o livro, sendo o mais difícil entrevistar o biografado, em meio à roda-viva de shows a que ele é submetido. Suponho que, pela notoriedade que pegou novamente a partir do CD Ao Vivo, lançado pela Sony Music, a editora tenha se apressado, pretendendo aproveitar o bom momento de RR. Só assim se explica as várias falhas de revisão - Márcia de Windsor é grafado como Márcia d'Winderson e o tétrico doutor Valcourt, personagem de Sérgio Cardoso numa novela famosa dos anos 60, citada na canção O Papa-Figo, aparece como Walkur. São igualmente deficientes os existentes ao longo do livro. Por exemplo: quando se fala que Reginaldo Rossi, apresentou-se no programa de Carol Fernandes (o publicitário? no livro isto não é esclarecido) cantando o tema do filme Fúria no Alaska, não é citado o nome da música, que é North of Alaska, com o cantor Johhny Horton. Da mesma forma, há um engano quando a canção White Christmas é incluída entre os `acontecimento' (sic) de 1943 (ano em que nasceu Reginaldo Rossi). White Christmas deu ao seu autor, o russo, naturalizado americano, Irving Berlin o Oscar de 1942.

Os melhores trechos do livro estão nos depoimentos de Reginaldo Rossi ao autor. Um desses momentos é quando ele discorre sobre o grave acidente automobilístico que sofreu em 95. O cantor passou 18 dias no hospital, angustiado pela possibilidade de não conseguir mais andar. Foi nesta fase que ele confessa que, pela primeira vez, passou a dar importância ao dinheiro: "Ter dinheiro ou não nunca me abalou. Eu só vim a tomar consciência dele após o acidente. Entre 80 e 95, ganhei milhões de dólares (sic) e gastei milhões de dólares. Joguei, adquiri imóveis, dei casa de presente, comprei apartamentos, comprei metade de Itamaracá, vendi, perdi, dei apartamentos pra gente morar em São Paulo e nunca me arrependi disso. Só tomei consciência do dinheiro, quando fui forçado a ficar em cima de uma cama e me restavam quatro carros velhos, tipo dez mil reais. Passei quatro meses vendendo um carro por mês para comer".

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Jornal do Commercio
Recife - 28.11.99
Domingo