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ARTIGO

A herança do tempo

por FÁTIMA QUINTAS*

O vestido preto se ajustava ao corpo, adelgaçando as linhas sílfides. Júlia costumava trajar com sobriedade, nenhum exagero, uma discrição que realçava a elegância no seu mais puro estilo. O ousado decote exibia um colo sensual, adornado com uma corrente de ouro talhada em assimétricos arabescos. Um pingente de água marinha compunha a beleza de uma jóia antiga de sua avó materna. Os brincos selavam a harmonia do conjunto, a exaltar o traçado estético de quem tem apenas vinte e um anos. Cabelos curtos, mãos bem tratadas, rosto angular, conhecia os seus torpedos de sedução. Nascida de uma família tradicional, herdara um sobrenome aristocrático, que a envaidecia à medida que apontava a insigne ascendência açucareira. Não se gabava de possuir dinheiro. Na verdade, vivia à sombra de imagens desconhecidas, suficientemente fortes, todavia, para atravessar gerações, conferindo-lhes toques de consangüinidade. O bisavô falecido, antigo senhor de engenho, preservara silenciosamente a linhagem familiar e continuava a ditar as normas parentais. E a recorrência ao seu nome se fazia ordinariamente como se os mortos comandassem os vivos com a indiscutível força do imaginário endogâmico. Se os canaviais perderam o viço das fartas semeaduras, e o engenho de fogo morto encerrara a ciranda da moagem, restava a imponência de um massapê eivado de fantásticas simbologias.

Tudo mudara. Júlia sequer participou do fausto canavieiro. As histórias chegaram-lhe aos ouvidos como ecos de um tempo carregado de excessos e exuberâncias. Reconstituir o passado representava para ela um exercício de aprendizado que, ao longo dos anos, adquiriu um sabor de realismo incontestável. Mas a vida estava ali, agora era diferente. Naquele salão improvisado, as amigas discorriam sobre fatos tão impactantes que as doces narrativas de sua mãe se esvaíam em fábulas apenas evocativas. Decidiu apagar as lembranças e dançar com um colega de turma.

Divirtiu-se. Riu da própria ingenuidade. Não se cansou de enumerar lições de um legado que lhe parecia por vezes mais presente que pretérito. Falou com tanta espontaneidade que Tomás se surpreendeu. Afinal, Júlia não escondia a insuperável timidez, sempre procurando ocultar-se por trás de uma máscara visivelmente artificial. Dançou a noite toda.

Poucos meses se passaram. Casou-se sem a pompa das irmãs. Tomás a fez dona de si mesma, uma mulher completa sem débito para com a vida. Forte, digna, corajosa. Capaz de assumir a estrada escolhida, livre dos estereótipos de uma infância minada por miragens de opulência.

E o engenho, a cana, o massapê transformaram-se num retrato que não se perdeu no tempo, antes revelou-se poderoso nas histórias noturnas, contadas à cabeceira dos filhos pequeninos. Quem não tem a sua fantasia de trancoso?

1 - Meu amigo Celso Rodrigues: externar o meu carinho por você diz de um sentimento que guardo com cuidados pueris. Obrigado por ter-me estimulado a continuar na peleja da vida. Abraço-o com gratidão, eu, uma eterna carente de gestos afetuosos. E humanismo lhe sobra. Que bom!

2 - Nesta próxima quinta-feira, 2 de dezembro, estarei na Bagaço esperando meus amigos para juntos festejarmos o lançamento do livro De Névoas e Brumas. Até lá.

* Fátima Quintas, escritora, é antropóloga da FJN


Jornal do Commercio
Recife - 29.11.99
Segunda-feira

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