ARTESANATO
Santos de barro já
não fazem mais milagrespor
DIANA MOURA BARBOSA
Ontem, o Jornal do Commercio mostrou
os problemas enfrentados pelo artesão e artista
plástico Zé do Carmo, de Goiana. Infelizmente, seus
problemas não atingem os profissionais isoladamente.
Todo o pólo de artesanato de Tracunhaém, um dos mais
importantes de Pernambuco, também passa por sérias
dificuldaddes. Sem receber investimento do setor
público, nem condições de se autogerir por meios
privados, os ceramistas do local vêem as vendas
despencar por causa do fraco movimento turístico.
Enquanto isso, a venda de peças de barro começa a
crescer no munícipio de São Benedito do Sul, o mais
pobre de Pernambuco. Acompanhe a seqüência da
reportagem, hoje e amanhã.
A presença da cidade de Tracunhaém no
roteiro do artesanato pernambucano já é antiga. A
cidade ganhou fama por possuir alguns dos santeiros mais
tradicionais do estado. Além de moldarem no barro
imagens sacras, os profissionais do local também fazem
peças de decoração e utilitários, mas são os objetos
de caráter religioso que alcançam melhor preço.
Apesar de sua importância para a
região, os artesãos do local vêm atravessando uma
série de dificuldades, que vão desde conseguir matéria
prima até à falta de organização empresarial para
alavancar as vendas.
Muitos dos profissionais de Tracunhaém
trabalham na Associação dos Artesãos de Tracunhaém,
que funciona no prédio de uma antiga escola pública. O
espaço não tem infra-estrutra suficiente para atender a
todas as pessoas que pretendem utilizar suas
instalações. Mesmo assim, a instituição ainda
congrega pelo menos 45 artesãos, segundo a presidente da
associação, Noêmia Barbosa da Silva. O número
corresponde a cerca de 20% dos 250 moradores da cidade
que trabalham com a cerâmica. quantidade parece elevada,
mas Noêmia explica que já foi muito maior.
"Aqui tinha muito mais gente
fazendo peças de barro. Mas hoje o mercado não se
sustenta e as pessoas já querem fazer outra coisa",
lamenta a presidente.
O prédio da associação dispõe de
tão pouco espaço, que a própria Noêmia está
trabalhando em casa. "Coloco as minhas peças para
vender na associação, mas na hora de preparar o barro,
moldar as esculturas e dar o acabamento, prefiro ficar em
casa, porque lá é muito apertado", confirma. Não
que a casa de Noêmia seja...pródiga... em espaços
amplos.
Sua residência possui apenas cinco
cômodos pequenos - onde ela mora sozinha -, que vivem
sempre cheios de restos de argila e são ornamentos por
poucos móveis.
Para a presidente da associação,
muitos foram os motivos que levaram à decadência do
pólo de artesanato de Tracunhaém. Um deles seria a
falta de união entre os trabalhadores. "Não há um
método de produção único, uma margem de preços.
Aqui, cada um trabalha do jeito que quer", explica a
artesã. O resultado disso é uma variação muito grande
na qualidade das peças e dos preços cobrados pelos
profissionais. Um conjunto de presépio com 14 a 16
esculturas e 1,10m de altura pode custar de R$ 100 a R$
2000, dependendo de quem o tenha moldado. Noêmia também
se queixa da grande quantidade de cópias das peças, que
tornam a produção toda muito parecida. "Isso
desvaloriza o trabalho de alguns artesãos",
explica.
PROBLEMA COMUM - Os problemas
identificados por Noêmia também atingem até os
artesãos mais antigos. É o caso de José Joaquim da
Silva, 60 anos, conhecido como Zezinho. Trabalhando desde
1966 com o artesanato, ele se queixa da falta de união
entre os profissionais de Tracunhaém e por isso
desvinculou-se da associação e trabalha cada vez mais
isolado. "Tem gente aqui que manda esses meninos
(`guias' da cidade) divulgarem seu trabalho. Às vezes,
eles tiram o cliente de dentro da casa de outro artesão.
Eu não faço isso. Trabalho por conta própria, faço o
preço que acho justo e não me interesso pela vida de
ninguém", conta Zezinho. Ele acredita que se a
comunidade fosse mais unida seria mais fácil se
mobilizar e conquistar melhorias para todos.
"Infelizmente isso não acontece", lamenta.
Apesar de ter uma visão crítica dos
males que atingem o pólo de artesanato de Tracunhaém,
Zezinho, na verdade, é um dos profissionais menos
afetados pelos problemas da comunidade. Suas vendas têm
crescido com encomendas que ele recebe de diversos
estados brasileiros. A mais recente delas partiu do
ministro da Cultura Francisco Weffort, que lhe pediu um
presépio de 14 peças com pouco mais de 0,5m de altura.
Cauteloso, Zezinho não informa o
número de suas vendas a ninguém. "Aqui, a gente
não pode dizer nada, não, porque todo mundo fica de
olho", desconversa.
Nesse momento de crise, Tracunhaém
vive a lei do `salve-se quem puder'. É uma pena que nem
todos possam. Enquanto a situação do pólo vai mal, o
artesão Carlos Roberto Gomes da Silva, conhecido como
Betinho, define sua própria condição como
"terrível". Há alguns meses, um esgoto da
prefeitura estourou dentro de sua casa. Depois disse, ele
teve que dividir o pequeno espaço de seu ateliê com a
família - a mulher e dois filhos.
"Está cada vez mais difícil
trabalhar aqui. As autoridades tratam o pólo de
artesanato com descaso, mas deveriam pelo menos resolver
a questão do saneamento, que de competência da Compesa
e da prefeitura. Mas eles ficam empurrando a situação
com a barriga e ninguém resolve nada. Estou revoltado.
Não tenho mais espaço para criar e produzir minhas
peças. Não faço imagens em série como os artesãos
daqui. Sou um artista plástico, preciso de
tranqüilidade para me dedicar ao trabalho", reclama
Betinho.
COM ELEGÂNCIA - Mesmo entre
tantas dificuldades, há quem prefira se queixar da
situação sem jogar areia no trabalho dos outros. É o
caso de Maria Amélia da Silva. Aos 78 anos, ela é
uma das artesãs mais antigas de
Tracunhaém e também sofre com a falta de apoio que a
região vem enfrentando, mas prefere estar sempre de bom
humor para receber os clientes. "Olhe, minha
produção diminuiu tanto, que o meu forno está
desativado. Agora, levo as minhas peças para queimar na
associação ou no forno de alguns amigos, quando eles
podem me ajudar. Aqui, se tem intriga, eu não sei. Sou
amiga de todo mundo", posiciona-se Maria Amélia.
Para ela, o problema do lugar é que os
turistas perderam o interesse pelas imagens de santos.
"O mundo parece que já está cheio de artista.
Antigamente a gente tinha muito trabalho. Meu pai vendia
muito, queimava todo dia e a gente não parava de moldar
até escurecer. Hoje, a gente faz essas peças, elas
ficam aqui, mas vem pouco comprador", descreve a
artesã, sempre sorrindo.
Quem olha Maria Amélia falar, imagina
que ela não se importa com falta de clientela na
comunidade, mas não é bem assim. "Ah, eu aprendi a
me virar. Faço de tudo. Sei costurar, bordar, cozinhar,
conheço de agricultura e ainda recebo uma pensãozinha
porque sou viúva. Ainda assim, prefiro trabalhar no
barro porque é melhor do que cortar cana-de-açúcar.
Aqui, quem não quer fazer as imagens de santo, trabalha
na cana e se corta todo. Na cerâmica, a gente se esquece
dos problemas e enquanto está trabalhado só faz coisa
bonita", define a artesã.
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