A QUATRO MÃOS
Na tela, as duas faces
de uma recuperaçãopor
MARCOS TOLEDO
A união de duas histórias de
recuperação é o que pretende a dupla de realizadores
Franklin Júnior e Márcio Câmara, com o projeto do
documentário Orange de Itamaracá, que está sendo
rodado em 16mm e será finalizado em vídeo, visando o
mercado televisivo. O filme pretende fazer um registro da
vida do ex-presidiário José Amaro Filho, que dedicou as
últimas três décadas à própria recuperação e à do
Forte Orange, localizado na Ilha de Itamaracá, Litoral
Norte de Pernambuco. O anúncio desse projeto induz a uma
análise da própria produção audiovisual no Estado.
A continuidade de trabalhos nos
últimos anos já aponta para novos caminhos, o que pode
significar uma evolução no processo. Neste sentido, a
busca da profissionalização e a diversidade de formatos
são os pontos mais evidentes. Uma das alternativas para
viabilização de projetos, a realização voltada para a
TV, está se tornando cada vez mais freqüente. Servem
como exemplos os especiais Luiz Gonzaga: A Luz dos
Sertões (já exibido) e Brasil-Portugal 500 Anos, ambos
de Rose Maria & Anselmo Alves; e A Anunciação, de
Jorge de Souza, todos frutos das parcerias entre
produtores independentes e emissoras locais.
A dupla Franklin & Márcio, que
trabalha com cinema há vários anos, acredita nesse
nicho de mercado. O primeiro, pernambucano, foi formado
na prática, na produção de filmes como Corisco &
Dadá, de Rosemberg Cariri, e O Cangaceiro, de Aníbal
Massaini; e na série Zumbi dos Palmares, de Walter
Avancini, para a Rede Cultura.
O cearense Márcio, sobrinho de Dom
Hélder Câmara, desfruta de uma formação acadêmica
cursada na San Francisco State University, na
Califórnia. Especialista em som, voltou ao Brasil, onde
trabalhou em filmes como A Ostra e o Vento (Walter Lima
Jr.), o mesmo Corisco & Dadá, e nos curtas Árvore
da Miséria (Marcus Villar), Clandestina Felicidade
(Marcelo Gomes & Beto Normal) e O Náufrago (Amílcar
Claro), entre outros.
Foi trabalhando na produção do
supracitado Zumbi dos Palmares - cujas locações
incluíram o forte de Itamaracá -, em 96, que Franklin
ficou conhecendo a história de José Amaro. Na época, o
ex-presidiário já era conhecido como o `guardião' do
local, e ajudou na construção dos cenários para o
filme. No ano passado, o produtor firmou uma parceria com
Márcio - com quem trabalhara nos filmes de Cariri - e,
juntos, começaram a escrever o roteiro e o projeto de um
média-metragem de 52 minutos (o formato usual de
documentário para a TV).
Orçado em R$ 475 mil, o projeto de
Orange de Itamaracá foi inscrito no Sistema de Incentivo
à Cultura do Estado (SIC), no qual foi aprovado em
agosto último. Segundo os cineastas, a Fundação de
Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de
Pernambuco (Fade/UFPE), administradora do Forte, apóia a
produção e vai submeter o projeto à Lei Rouanet.
Antes de obter qualquer financiamento,
contudo, os produtores fizeram as primeiras filmagens na
Ilha com recursos próprios. Ao todo, contam com 30
minutos de material bruto, filmado em 16mm, e já
transcrito para vídeo. A medida foi tomada visando às
negociações com empresários, possíveis
patrocinadores; e TVs brasileira e do exterior,
possíveis exibidoras. Em especial da Holanda, onde já
há um contato. "Esse projeto desperta para a
realização de outros que mostrem o elo entre Brasil e
Holanda", justifica Márcio Câmara.
RECUPERADOS -" O enredo de
Orange de Itamaracá consiste em duas abordagens. Uma
narrativa própria de documentário, mostrando em cores a
vida de José Amaro hoje, com o dia-a-dia no Forte, e o
trabalho na comunidade; e uma outra ficcional,
dramatizando em preto-e-branco a história de José
Amaro, até a recuperação do patrimônio.
Franklin Júnior ressalta que um dos
objetivos é mostrar como indivíduos condenados por
crimes como o de homicídio (caso do personagem do
filme), podem ser recuperados. "José Amaro teve
três chances de fugir da penitenciária, mas não o
fez", conta o cineasta. "A liberdade dele
estava em ter uma segunda oportunidade", acredita.
As filmagens estão previstas para serem retomadas em
fevereiro, com duração de um mês. Orange de Itamaracá
deve ficar pronto em julho de 2000.
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