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FILOSOFIA
Gilberto Freyre e o tempo tríbio

por FATIMA QUINTAS*

Lembra Eliot: "O tempo presente e o tempo passado/ estão ambos, talvez, no tempo futuro./ E o tempo futuro contido no tempo passado." A sua força adquire uma transdimensionalidade para além do instante vivido e recai no domínio da reflexão histórica: ultrapassa a cronometria do "gélido" relógio e não se afunila na estreiteza cerceante de eras findas. A dialética atinge o clímax dos paradoxos: é sedutoramente convidativa a grandes meditações porque os momentos vazam no espaço em que termino esta frase. Afirma a historiadora Cecília Westphalen: "Deste modo, o homem nunca está apenas no presente. De outro lado, se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico, e se procura viver apenas no futuro, torna-se utópico." É difícil detectar onde se encerra o agora e onde começa o advir. Mal se inicia o momento, ele já se despede. É o ser em confronto com o ter-sido. De repente, onde estará o sonho da infinitude? No ontem, para além de mim? No hoje, a reter o milésimo do é? Ou em qualquer futuro distante, longo, duradouro? Mas, que futuro, se o estar-sendo se dissemina em frações de segundos? O que é o tempo, esse tempo que torna e retorna na tempestade de novos renasceres? Agostiniano, hursseliano, bergsoniano?

Não há tempos demarcados ou definidos em Gilberto Freyre. Há simultaneidade de ontens, de amanhãs, a configurar dimensões icônicas. Afirma enfaticamente. "O tempo - inclusive os futuros possíveis de um indivíduo ou de uma sociedade - é, em grande parte, o próprio Homem. O tempo é a própria vida vivida pelo Homem: indivíduo ou sociedade". Freyre se alia à tríade temporal, evoca a si mesmo, reflete o rosto do outro no espelho coletivo e se desloca para o ontem com a coragem de encontrar-se. Desbrava veredas. Escarafuncha o baú de feitiços, que era como sua mãe - D. Francisca de Mello Freyre - denominava a sua velha arca de brinquedos. Desta feita, não há só brinquedos.

De forma empática, reacende a vida dos tempos mortos e reconstitui realidades extintas. A sua weltauschauung acolhe a semente do fenômeno na busca da ancestralidade. Heuristicamente ansioso. A conviver com inúmeras interrogações e interjeições. Ambibuidades? Mais que isto: incoerências que estruturam o eu de cada um. Um eu diversificado na coreografia múltiplica de quadro impressionista ou talvez expressionista. O homem envolvido em oposições reais e fictícias. Propositadamente adverso a qualquer tempo superficial ou meramente transitório. Transitório, sim, enquanto transitoriedade física. O Homem e o Ser, efemeros e eternos. A tríade existencial se solidifica.

Tempo tríbio. Retrospectivo. Antecipador. Fluente e confluente. A encarnar os flashes vibratórios da consciência. Intimistamente gilbertiano. Mutável na desembocadura de repetições e inovações, de tradição e de modernidade. Contemplativo, simultâneo, frenético em humanismo, fundamentado no estar-sendo freyriano. Um tempo de processo, de desenvolvimento, de vir-a-ser. Tempo-Homem, Tempo-Vida, Tempo-Possibilidade. Trinômio edificado em pilastras de união. Reproduzido no espelho da ciência a esboçar as linhas de um cenário hispanicamente extrovertido, à Picasso, à Velásquez, à Dali, tanto quanto proustianamente introspectivo, à San Juan de La Cruz, à Rainer Maria Rilke, à Santa Teresa, Lulio ou Gracián. Saudade dos tempos que se foram e que jamais se enturvam diante da passagem avassaladora do calendário - a saudade como método, no dizer de Franklin de Oliveira. Tempos siameses, remanescentes, gilbertianamente aclamados. "O tempo geral seria, assim, sempre tríbio, sempre plural; sempre composto e complexo; sempre síntese de três vidas coletivas. Nunca singular nem simples."

A fusão temporal completa o homem e o pereniza. Eterniza-o em épocas para além e para aquém do pensamento. Apegado à sua conceptualização tríbia, Freyre absolutiza o relativo, porém não relativiza o absoluto. Este é absolutamente absoluto e irrelativizável. E o absoluto é o homem que não tem fim. "Está, portanto, no conceito de tempo tríbio a esperança de não acabar nunca. (...) A vida, a nossa vida não tem fim. Ela existiu ontem, existe hoje e existirá amanhã", sentencia Westhfalen.

Há apenas um tempo: passado, presente, futuro.

* Fátima Quintas é antropóloga

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