VIDA CRÔNICA
Um inverno em pleno
verãopor JOAQUIM
CESÁRIO DE MELLO*
Ele quase a encontrou naquela tarde em
que o cinza encobria os móveis, as coisas e as pessoas,
derramando-se por todos os cantos, quinas, paredes,
chãos, tetos... feito luminosidade tardia de um
anoitecer. O céu inteiro anunciava a chuva que não
vinha, enquanto o homem de meia-idade vivia a
sobra-metade de uma espera. Este homem, em sua incessante
busca sem espantos em meio a tantos rostos que não o
dela, era como a tarde enfraquecendo-se de brilho no
passar do intervalo passageiro do dia.
Se ao menos soubesse como ela seria,
talvez assim o ajudasse a libertar dos olhos tão
prisioneiro sonho. Sonho sem rosto, vulto, forma ou face,
de inominada morfologia cujo nome, acaso nome porventura
tivesse, o escreveria em seus cadernos com angulosas
letras cheias de eternidade. Por dela nada saber, a não
ser o que o sonho a si falava, restava-lhe procurar aqui,
ali, acolá, em cada mulher que dele se aproximava, o
reconhecimento de tamanho amor ainda não amado. Conhecem
aqueles que amam sem objeto o esmagamento sufocante que
sofre o peito ao pulsar e pulsar inamados afetos na
destituída reciprocidade de um vazio.
Na tarde em que tardava a chuva,
encontrava-se ele no aguardo de um presente tão distante
quanto o futuro é de um passado. Intervalava-se assim
entre nenhuma esperança e saudade alguma. Sabia ele o
certo de não ter esperanças, o que tinha era a
necessidade da crença. Acreditava muito mais na procura
que no encontro, pois o achar finda sempre a busca e era
ele ali a vida inteira somente um homem de procuras.
Procurar é viver, pensava ele, enquanto alegrava-se de
frustrações e isentava-se de tédio - embora o tédio
acompanhe o homem, qualquer homem, em seu percurso pelas
tardes indefinidas de chuva.
O mormaço era enorme e morno, ao tempo
em que a chuva era promessa. Maldizia em horas essas a
falta de verba e o ar-condicionado jamais comprado. A
biblioteca ardia de abafamentos na elevação serena e
monótona da temperatura, porém não mais e muito menos
que o aquecimento do aconchegado sentimento, o qual
puxava ainda mais próximo ao peito como se quisesse
agasalhar-se da frigidez indiferente da própria alma. De
que adianta a aproximidade dos corpos se o que se quer é
a fantasia do amor incarnalizado. O corpo é o espaço de
onde secretam-se encerrados prazeres liqüefeitos, já o
romance habita o onírico. Um homem que assim ama, o amor
que não ousa achar seu depositante corpo, entende que o
amor não é cor-de-rosa, tem ele a cor dos sonhos que
senão é a pigmentação incolorida que colore
imaginosamente todas as ilusões.
Assim constrói o bibliotecário suas
tardes invernosas de verão com a inutilidade de suas
impalpáveis buscas. Ilhado em seu burocrático ofício
de anos de retirar e guardar livros, protege-se do mundo
corpóreo e da gravidade dos seus arriscados toques por
detrás do balcão donde olha as passantes como que vê,
apoiado no peitoril de uma sacada, a lonjura das ruas. O
longo e linear balcão o aparta de todos, pois também
sabe ele, entre tantos livrescos saberes, que só se
sofre de separações quem de quem se separa se um dia
dela se aproximou. Sonhos não machucam ninguém.
Havia quase em todas as mulheres que
frente ao balcão passavam. A meia-vida do bibliotecário
era de quases, bem como a outra metade que ainda lhe
viria. Era-lhe o mundo, portanto, constituído de dois
lados: o lado de cá do balcão em que se há a
nostálgica lembrança dos passados extintos e o lado de
lá onde o amanhã jamais será ontem, pois é o futuro
apenas quase. No lado de lá reside a feliz solidão de
um sonho inconsumável.
Coberto de cinza como de cinza estava
seu redor, aguardava mais uma vez o homem que era
meio-bibliotecário e meio-sonho. Não fora ali naquela
tarde que ele a encontrou e muitas são as tardes de uma
vida. Os primeiros salpicos de chuva manchavam as mesas
próximas das janelas abertas. Eram pingos frágeis e
curtos, aumentando o mormaço agora também cheirando o
sujo quente das calçadas. Decerto a tarde ainda seria
longa e logo chuveria, e em dias como aquele o quase é
até então muito menos que um triz. O bibliotecário
providenciou fechar as janelas e guardar os livros
revestidos de cinza. Era hora também de guardar os
sonhos temporariamente e encerrando os livros, encerrou a
tarde.
* Joaquim Cesário de Mello é
escritor e psicólogo
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